Carlos Karoá escreve: ‘ÀGUAS DILUVIANAS’

 

No começo dos tempos, por razões que fogem da minha compreensão, Deus estava profundamente magoado com o povo aqui da terra, inclusive com os moradores antigos aqui da região, quem sabe índios Payayas. E, por razões que também não entendo de jeito nenhum, tomou medidas ainda mais esdrúxulas e cruéis, se analisarmos bem os fatos.

Num acerto bilateral e único, ordenou a um carpinteiro de sua profunda confiança, e era sem nenhuma dúvida um excelente profissional, a construção de uma embarcação de proporções gigantescas, para acomodar parentes e amigos mais próximos e um casal de todas as espécies da fauna europeia, asiática e africana. O carpinteiro Noé, era assim o nome do eleito dos céus, não poderia ter embarcado na ditosa, grandalhona e imensa banheira, onças, teiús e ararinhas azuis, por exemplo, porque esses bichinhos são espécies nativas da América do Sul. Não sei dizer o que aconteceu com os bichinhos daqui dessas bandas, no meio ou abaixo dos trópicos. Só sei dizer que Deus ia mandar lá de cima, o maior aguaceiro que se teve notícias até aquela data. E assim foi feito.

Por um período de tempo que desconheço e deve ter sido longo e trabalhoso, o homem Noé se dedicou com afinco, determinação e zelo, na elaboração deste projeto grandioso, em parceria com Deus, Senhor absoluto do universo. E o aguaceiro veio

Foi um desastre ambiental dos mais colossais.

Com as torneiras celestes, escancaradas por 40 dias e 40 noites, o mundo inteiro se tornou uma imensa piscina redonda, com água cobrindo até o monte Everest, coisa que segundo as crônicas do velho e novo testamento, nunca tinha acontecido.

Pereceram neste capricho divino, homens e mulheres pecadoras crianças que pecados tivessem ou não e todas as populações das Américas, se é que naquele tempo já existiam Índios por estas e aquelas bandas. O certo é que todos os homens e animais que não estavam na arca, era assim que se chamava a nau gigantesca, feneceram neste infortúnio divino, coisa que não entendo, pois segundo as escrituras, o nosso Deus é sinônimo de amor e generosidade.

O dilúvio, se realmente aconteceu, deixou resquícios de alta umidade aqui pela chapada. Quando aqui em Morro do Chapéu, cheguei em janeiro de 1965, havia um cinturão de charcos em volta da cidade. No Pó-Só, perto das nascentes do rio Jacuípe, no poço do homem, onde as pessoas sempre iam lavar seus automóveis, nas traíras onde dezenas de lavadeiras exerciam os seus ofícios, na busca do sagrado sustento familiar de cada dia, na ilha de Friandes, onde se faziam pic-nics em finais de semana, na caixa d’água, um poço de água na natural, encima da serra no lado leste da cidade, que abastecia através de canos, a Vila Matos, residência do Sr. Lauro Matos, cuja particularidade era uma torneira mijando água potável 24 horas por dia, e no regato chamado “geladeira” onde nós estudantes, íamos todos os dias tomar banho, pra nos apresentarmos limpinhos no Colégio Senhora da Graça.

Estes cursos de águas naturais, de cor negra como o azeviche e frias como mãos sem vida, eram perenes, constantes e sem variação de volume, um luxo pra quem era forasteiro no colégio, da turma que moravam prós lados do alto sertão da Bahia e convenhamos, as águas lá para aquelas bandas não eram tão copiosas. Mas nesse mundo de realidades e fantasias, tudo tem seu tempo de vida e já nos anos 80, era possível perceber que a fartura de H2O, em volta da cidade, tava indo devagarinho pro beleléu.

No início dos anos 70, deixei a terra do frio e fui buscar novos rumos na capital do Estado. Pra lá, dezenas de jovens iguais a mim, fizeram a mesma coisa. Sem percebermos, estávamos fechando o nosso ciclo de vida no contexto juvenil, para o início da nossa vida adulta, com responsabilidades, deveres e obrigações que antes não tínhamos. E quando retornava para rever parentes e amigos, percebia que o tempo de permanência de alguma coisa tinha se esgotado, que já havia mudança nas ruas, nas casas, nos objetos e evidentemente nos rostos mais envelhecidos de todos nós.

A ilha de Friandes,  hoje de águas poluídas, teve o seu ciclo de visitas para pic-nics encerrado, já faz um bom tempo. Com a chegada do asfalto e mudança de rota, o poço do homem, antes um regato de águas límpidas e negras, com frondosos Cambuís lhes cobrindo as areias brancas, também teve suas umidades minguadas. Está na primeira ponte da BA 052, destino Salvador, e de águas diluvianas não tem mais nada. Também teve seu prazo de validade esgotado, e a única coisa que lhes cabe por agora, é quando passamos por lá, em kilometragem acelerada, faz se um breve comentário: Já tomei muitos banhos aqui no velho poço do homem. Só isso nada mais.

As traíras também, praticamente desapareceram. Apenas um filete de água barrenta, molha a estrada encascalhada que agora lhes invade o leito. Seu fim, sob manilhas ou ponte, não está muito longe. O bicho homem tem pressa. Lavar roupa agora só em brastemps automatizadas. Um descanso pras munhecas das mulheres lavadeiras.

Do mesmo modo, a fonte do Pó-Só caminha para o desaparecimento. As lavadeiras há muito foram embora, e o espaço pra visitas aprazíveis nós finais de semana, agora está bem pontuado de alicerces de concreto. Ruas bem povoadas, órgão de Prefeitura,  e alguns terrenos restantes já exibem pontaletes de concreto, indicando novas construções. A velha ponte de passagem única serve de indicador para a outrora fonte do Pó-Só, onde visitantes fazia a alegria do lugar. Não tem jeito. Nesta vida tudo tem sem tempo de oásis no deserto. Pra tudo virar areia, é só uma questão de tempo.  Quem pensar diferente está abauladamente enganado.

As cacimbas ou regatos naturais, atrás do colégio Senhora da Graça, conhecidos como “geladeiras” era o paraíso dos jovens nus. A garotada que estudava no período vespertino, não gastava a água de casa. Lembrando que naquela época, não existia água encanada, tinha que ser buscada no derredor da metrópole.

A partir das 11 da manhã, uma renga juvenil entoalhada, tomava o rumo dos pocinhos gelados. Poderia até nomina-los porque fazia parte do grupo, mas não há a necessidade do registro. Basta indicar os Pensionatos de dona Rosa e de dona Deraldina como fonte de origem dessa turma. Alguns estudantes de Irecê, alguns moradores da cidade, também faziam parte do cortejo. Era uma festa siberiana de garotos pelados, tomando banho em águas negras e geladas, cuja temperatura na época do frio, beirava os 10 graus.

As águas diluvianas do velho Noé, pelo menos aqui em Morro do Chapéu sumiram de vez. A passos de cágado, mas sumiram. A cidade aumentou o perímetro, a urbanidade se espalhou como ondas de lagoa quando nela se atira pedra, o povo de só gente conhecida, passou pra rostos que não sei aonde mora ou gente que não sei de onde é.

E assim se fecha o ciclo das aguas frias, em derredor da outrora cidadezinha de Morro do Chapéu, agora um aglomerado com vistas num futuro de cidade de médio porte.

O tempo da lata de água na cabeça foi embora. Acabou-se a era das águas de regatos e cacimbas e se abre o tempo dos poços da dona Embasa, com a modernidade das águas em canos permanentes e recibos de cobranças mensais, pelo conforto do banho quente.

Acredito que há um ciclo para quase tudo, nesta aventura humana pelo cosmo que nos cobre de ar e luz solar.

Quem sabe um dia também, nossa galáxia deixe de existir e nalgum lugar onde o infinito nem nos permite sonhar, nasça um casal de aventureiros com uma maçã e uma serpente a tiracolo.

É na nossa infância que vivenciamos a nossa inocência.

É na adolescência que acalantamos os nossos sonhos.

É na fase adulta que conhecemos de que lado dorme, os interesses de quem nos afaga.

Alguém já disse: Se quiser ver o arco-íris,

Tem que aguentar a chuva.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

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MORRO DO CHAPÉU