Carlos Karoá escreve: ‘A RUA DA PALHA’

A RUA DA PALHA

 

 

Lá na ponta da rua, onde a miséria estava no bolso dos seus moradores, existiam alguns barracos de paredes de varas de madeira e barro fechando os buracos. O reboco era uma utopia generalizada e o teto tinha a palha como a proteção de sol e chuva. Porém, lá bem pertinho das ruas principais, um aglomerado distinto, onde mulher casada não passava, todas as casas ou casebres, eram cobertos com telhas, com suas frentes pintadas de cores variadas, ao gosto dos donos das moradas, mas, por razões que desconheço, o local era afrontosamente conhecido como a    ” a rua da palha”. Do mesmo modo, que se usava esta alcunha pejorativa em Barra do Mendes, onde vivi os meus anos de guri, também em Morro do Chapéu onde debutei a minha inquieta adolescência, nominava-se como rua da palha, o alto, o médio ou o baixo meretrício. Não me perguntem porque as vezes se usam esta escala de grandeza, para os salões festivos da luz vermelha, porque eu também não sei. Acho que não maioria das pequenas cidades do noroeste da Bahia, as povoações onde se agrupavam as “donzelas” de vida fácil e que de fácil não tinha nada, eram chamadas de “rua da palha”. Geralmente humildes por ausência de urbanização, eram locais proibidos para jovens ainda imberbes, certamente curiosos, mas temerosos de terem a presença acusada por autoridades de plantão ou parentes e amigos da sua jurisdição. Quando garotos, eu e os outros só aparecíamos por lá, durante o dia, à cata de carteiras de cigarros vazias, que se transformariam em notas do nosso dinheiro de brinquedo, mas que por acordos infantis, seu valor nominal valia. Em Morro do Chapéu, a proximidade de um colégio público, obrigou as moradoras do bairro dos amores proibidos também rotulado como “rua da palha” a se mudarem para um local afastado, conhecido como ” a corrente” em virtude de estar neste novo endereço, a parada obrigatória dos transportadores de carga em caminhões, cujo trânsito livre só era permitido assim que se fizesse as verificações aduaneiras. Uma corrente atravessada na pista, impedia o livre acesso. Fui lá apenas uma vez, para uma visita pecaminosa.

Fico a imaginar quantas histórias tristes se escondiam sob os lençóis frios da prostituição. Quantas tragédias familiares vividas, pela ausência do perdão. Quantas lágrimas derramadas, pela saudade da casa materna, a falta dos pais e irmãos, a vontade de pisar a mesma rua da infância querida, a esperança de um gesto de aceitação e o sentimento de abandono que estaria no travesseiro em todas as noites de solidão. Nos anos 60, ceder aos apelos ou promessas de namorados persuasivos, poderia ser um erro de elevado custo, impagável, aos olhos de pai e mãe, um gesto imperdoável. Acredito num percentual elevado de caráter destas meninas que vivenciaram estas desditas. Muitas foram empurradas para esta purgação, vítimas do preconceito paterno e da vergonha dos olhares de parentes e amigos. Conheci pessoas que viveram a ventura de abandonar para sempre as “ruas da palha” para o convívio familiar tradicional e o fizeram com respeitosa dignidade. O cantor Odair José, disse certa vez numa entrevista, uma frase curta e verdadeira: São grandes mulheres. Também haviam aquelas que escolhiam a profissão por opção de vida, mas isto, só a elas diziam respeito.

As ” ruas da palha” se foram, quase todas desapareceram com as mudanças de hábitos, costumes coletivos e a chegada de um tempo diferente daquele vivido antes dos anos 60. Os contraceptivos mandaram embora a virgindade, as luzes vermelhas dos salões escuros foram trocadas por “leds” e as alcovas antes proibidas, ganharam o status de domésticas. Tudo em nome da modernidade.

O preconceito com as “ruas da palha,” porém, continua inevitável, neste quesito continua o mesmo. Nos locais de antes, um festim noturno, hoje testemunham a decadência em quase tudo que se vê. Sem valorização pecuniária, evitada por novos moradores, convivem diuturnamente com o abandono e a sujeira generalizada. O ambiente é degradado, como se tivesse pagando pelos erros do passado.

As antes nominadas “mulheres de vida fácil”

Prostitutas, vendera do corpo e mais um monte de adjetivos pejorativos, hoje, ganharam o nome moderno de “garotas de programa “.

Habitam os centros das grandes cidades, porque é mais fácil preservar a identidade. Atendem a uma clientela seletiva, em locais pré-determinados ou na sua própria residência. Estão sempre motorizadas para evitar perda de tempo e facilitar a locomoção. A clientela é seletiva, porque figuram normalmente em seus caderninhos de controle, os nomes de deputados, senadores e empresários bem-sucedidos. Um luxo para poucos. Não há constrangimento quanto a escolha da nova profissão, o fazem com a maior naturalidade, são os ventos da modernidade batendo nas portas antes lacradas, com o selo da vergonha e retidão.

A verdade absoluta neste decanto de amores proibidos, era a magia dos recintos em penumbra permanente, certamente para esconder as rugas, as desilusões, ou a saudade que em quase tudo havia. Sem amor, sem paixão, sem romantismo, apenas se cumpria um ritual comprado por dinheiro. Entretanto, aqueles breves momentos, ouvindo Valdick Soriano cantando “Paixão de um Homem, a voz suave de Anísio Silva bolereando ” Alguém me Disse ” ou Silvinho declamando a lacrimosa ” Quem é ‘ a afirmação é de cabo a rabo:

Não tinha preço.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

 

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