Carlos Karoá escreve: ‘A PRIMAVERA FOI EMBORA’

Nós chamados tempos do atraso, quando para o consumo da água de casa, era preciso botar a lata na cabeça e ir buscá-la na fonte e a iluminação pública em quase todas as pequenas e médias cidades do noroeste da Bahia, era através de motores estacionários, quase sempre de 50 a 150 CV e baixa RPM para maior durabilidade, dizer “Vou pra Bahia” mesmo morando no interior do estado, significava “Vou pra Salvador”. Era e é um pleonasmo vicioso, ou vício de linguagem, que eu, até hoje, por saudosismo não deixei de mão e vou continuar até o sol raiar ou a padaria não parar de vender pão. Morador interiorano, todos os meses “vou pra Bahia”, obrigações sociais não me deixam no meu “canto”, até gosto, um pouco de sol quente da “capitá”, faz bem pro “santo”.

Dia desses tava por lá e resolvi pesquisar preços para a compra de um violão, a música, uma das minhas paixões, não abandona os seus eleitores. Os Shoppings, com seus pisos reluzentes, ar condicionado central, atendimento “vip”, é certamente uma excelente opção, mas, com a certeza tão cristalina como água de arroio, vão me cobrar também, o brilho da luz neon da sua fachada.  Fiquei a matutar então, o que fazer e foi aí que me lembrei, da outrora referência de instrumentos musicais da soterópolis, a famosa “A Primavera”, loja grandona lá da Praça da Sé e resolvi esticar as pernas até o nosso jurássico e combalido centro histórico. Fui de metrô.

Apeei na estação do Campo da Pólvora, imensa, luxuosa, adornada de granito e aço inox nos seus corrimões exemplo admirável de engenharia, sem dever nada aos correlatos metrôs Paulista e Carioca.  Faço esta observação, com embasamento pois conheço a ambos, os elogios são pertinentes à engenharia metroviária da capital baiana. Uma escada rolante me fez emergir em frente ao Fórum Rui Barbosa, o resto faria a pé, até a velha e antiga Praça da Sé.

Desci uma ruazinha na lateral do Fórum Rui Barbosa e alcancei o bairro Independência, na rua do Gravatá. Foi inevitável a decepção. Lembrei de Caetano Veloso nos versos “Triste Bahia oh quão dessemelhante”

Quando aportei em Salvador, no início dos anos 70, a Independência e seus bairros adjacentes tipo Saúde, Tororó, Desterro, traziam o selo da cidade velha, mas, talvez por estarmos no período da ditadura e não ser permitido a vadiagem, o transitar era limpo e salutar, não carecia de cuidados. Hoje, andar por aquelas bandas, é preciso olhar quem nos arrodeia. Antigos casarões ostentam apenas a fachada, estão em ruínas, abandonados e a moradia só é possível quando não se tem pra onde ir. Calçadas irregulares, sujas, com o lixo sendo um visitante contumaz, é preciso estar alerta a todo instante. Em frente ao Quartel do Corpo de Bombeiros, desviei o olhar em direção ao Terminal da Barroquinha.  Fiquei a observar a rua por alguns segundos, estava vazia, sem automóveis ou transeuntes, atestando um abandono por falta de comerciantes. Quase todas as lojas de portas fechadas, um retrato tristonho da centenária, barulhenta e outrora movimentada Baixa dos Sapateiros. O terminal Barroquinha agoniza, mas, ainda vai durar por um bom tempo. Não é possível a desativação, ainda atende as necessidades de uma parcela de usuários de transporte público, de quem habita ou trabalha no entorno da Mouraria, av. Sete, Tororó, Carlos Gomes e av. Joana Angélica. Mas, a degradação é o cartão de visitas pra quem bota os pés, nas cercanias do velho Terminal.

Subi a ladeira da Praça em meio ao transitar de automóveis, não se pode usar as calçadas, estão ocupadas por usuários de drogas, com seus papelões e outros apetrechos de dormir. Faz medo a aproximação. Olhei com tristeza as portas cerradas do antigo “Braseiro”, churrascaria popular onde os garçons atendiam de camisas brancas e gravatinhas borboletas. Todas as lojas da ladeira estão fechadas, a revolta por tamanho despautério é muda e silenciosa, não há o que fazer. Chego finalmente à Praça da Sé. Olho em derredor, a procura da Fonte Luminosa, do Cine Excelsior, do barulho dos ônibus, do falatório humano, num burburinho urbano que lamentavelmente desapareceu. O velho Edifício “Themis”, outrora ladeado por lanchonetes e lojas, agora é o esconderijo de um porteiro sonolento, que o ostracismo do lugar, lhes roubou o entusiasmo de cumprir os seus deveres de informar. Alguns escritórios lá encima, lhes prende cá embaixo, esperando apenas a hora de ir embora. Ônibus e automóveis, não transitam mais na centenária Praça da Sé. Vez em quando, alguns curiosos aparecem no monumento religioso A Cruz Caída e de silêncio contrito vão embora. Nada mais os prende no lugar.

Enfim, cruzo os umbrais da loja que me fez visitar a Praça: “A Primavera” a opulência em cordas e tambores do ” Eu rapazola”, agora está às moscas. Uma jovem atendente, simpática, se esforça em mostrar o que a loja não mostra mais. Alguns poucos instrumentos, compõem o acervo agora em visível e quantitativa adequação aos novos tempos.  Guitarras, violões, elementos de percussão, foram embora, os que lá estavam, não me fizeram palpitar o coração. Saí cabisbaixo, como se a loja a mim pertencesse, sentindo no peito, uma comiseração pela desdita alheia, fruto apenas da saudade de um tempo, que a gente sabe, não volta mais. Conhecia algumas outras lojas na secular rua do Saldanha e resolvi fazer o arrodeio no quarteirão. Na rua Guedes de Brito, observei por instantes, o antigo calçamento também secular de paralelepípedos pretos e ensebados pelo negrume do tempo, onde tantas vezes passei, em visita ao Cine Liceu. Outras lojas, também de cordas e tamborins de fazer batuque, me ofertaram alternativas bem mais convincentes que a ditosa “A Primavera”. Uma delas, em troca do “companheiro dileto”, ficou com os meus “vinténs”. Por curiosidade, fui pesquisar a origem dos nomes da rua do Saldanha e Guedes de Brito.  A primeira é homenagem ao abolicionista Saldanha Marinho, a segunda, Antônio Guedes de Brito, pecuarista, latifundiário, nasceu em Salvador em 1627 e por coincidência, faleceu em Morro do Chapéu em 1692 ou 1694.

O centro histórico hoje, sofre pela ausência de esperança. A “Cantina da Lua” do velho Clarindo, perdeu o romantismo do astro que lhes deu o nome. O “Varandá” do sempre elegante Sandoval Caldas era visita obrigatória dos amantes da boêmia. Hoje, quem por lá labuta, espera apenas chegar o lusco-fusco do entardecer, para tomar de volta o caminho de casa, o encanto do velho Pelourinho, há muito foi embora. Nos idos dos anos 70, se celulares existissem, o guarda Pelé, com seus trejeitos na ordenação do trânsito, seria através do “ZAP”, figura conhecida no mundo inteiro. Até mesmo a ‘Mulher de Roxo” sombria e emblemática, apareceria como curiosidade da famosa Rua Chile.

Perambular pelas ruas do centro histórico, é impossível não sentir o odor nauseabundo de urina. Atesta que durante a noite, não são gatos pardos que andam por lá, o que existe mesmo, são homens mal-educados, frutos de uma ralé humana, que o descaso público, os empurra cada dia mais, pra degradação.

Tristezas de dá dó.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

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