Carlos Karoá anuncia pausa na produção textual em ‘ADEUS ÀS ILUSÕES’

Quando eu ainda mijava na cama, a nossa casa tinha um enorme, um grandão e gostoso quintal. Tinha tanta coisa, que eu vezes me esqueço daquilo que existia por lá. Tinha um pé de mamão que nunca dava mamão e o porquê disso eu confesso que não sei até hoje. Tinha uma barrica de madeira de 100 litros, para se recolher os grossos pingos da chuva, passando por uma bica de Flandre, ou quando se ia buscar água no nosso velho e querido açude. Tinha um piso de ladrilhos lisos, que nunca se lavava e por isso pegava um limo da sujeira do tempo e de vez em quando alguém escorregava e pregava a bunda na dureza duída daquelas pedras. Tinha o nosso quartinho de atender as necessidades do corpo, porque naqueles tempos de fossas secas, não havia evidentemente, latrinas dentro de casa. Tinha um portão que dava pra um lugar de descartes de resíduos imprestáveis que nós chamávamos de “munturos” e era a mina das matérias primas pra se fazer brinquedos ou brincadeiras da garotada. Tinha a vida ululando nos quatro cantos do muro que nos cercava, porque quando se é criança, as cada amanhecer a gente pensa que a vida não tem fim, que nos basta pensar o que fazer, para cada vez mais se viver, momentos de felicidade plena. Ambições, desejos e ilusões, em nossas vidas, chega muito cedo.

Quando meninos ainda somos, a ausência do saber das coisas, é uma benção que a infantilidade nos confia.

Não há responsabilidade civil, não nos cabe imaginar sentenças, não nos importa o risco da desobediência, a nossa mente nos leva, onde nos aponta o querer, dos nossos corações. Quando meninos, ainda purificados com a dádiva da inocência divina, a cumieira paterna é o nosso porto seguro. Nos meus olhos brilhantes de admiração, os braços do meu pai eram inquebrantaveis, fortes como a fé, que aqueles homens simples, mas poderoso, em mim despertava. Inexpugnável também, era a proteção dos braços carinhosos da minha adorada mãe. Aninhado naquele colo, nem o inofensivo mas amedrontador trovão, me fazia ficar de olhinhos arregalados.

Quando menino, não depurava as meninges, com a consciência das sombras temerosas que um dia iria envelhecer, mesmo tendo em derredor de mim, tios, pais e avós, já bem amadurecidos pelo tempo. Pra mim não eram certezas, eram ilusões que nasciam e feneciam a cada amanhecer de um novo dia. Estas ilusões são terríveis em nossas vidas e a cada minuto que voa, nos aproximamos de uma realidade que as vezes nos sufoca.

E mais alguns aninhos na cacunda e mergulhamos num poço perigoso, de uma idade fantasiosa e fugaz, chamada adolescência. Dormimos nos lençóis da inciencia e acordamos milagrosamente nas cobertas do saber. Continuamos as desconhecer equações matemáticas e os mistérios das frases sintáticas do nosso idioma, propostas nas escolas, mas quando estamos adolescentes, nos julgamos semideuses. Nos escondemos nos recursos do eufemismo, para nos tornarmos mais simpáticos aos olhos alheios, mas os nossos pais, lamentavelmente, antes criaturas sapientes e seguras, vai nos parecendo carentes de conhecimentos. Começamos a questionar suas verdades e convicções, e lhes ensinar lições de vida. A adolescência nos traz as alegrias luzentes de uma época de sonhos e ilusões em nossas vidas. Todavia, e lá naquele mundo de quimeras douradas, que cometemos os atos de possível arrependimento tardio. Porém, a santidade do espaço adolescente na vida humana, é uma fantasia que não se pode dizer adeus simplesmente. De adocicadas saudades, ela é, incomparavelmente, única.

A vida adulta, com total responsabilidade civil aos 21 anos, é tão intensa quanto o estado viril que nesta hora nos abraça. É o tempo de buscar o nosso cantinho de dormir e sonhar, nesse universo voraz de competitividade e garras afiadas, prontas para o desafio de paredes e muros bem escorregadios.

As cada clarear de um novo dia, amolamos as unhas para tentar chegar o mais alto que pudermos. Quando adultos, deixamos para trás, muitos quesitos que antes eram relevantes em nossas vidas. Agora estamos focados em coisinhas reluzentes e invejáveis que o dinheiro pode nos dar. Não é pecado. Só bem poucos nesta vida pensa diferente.

E, lentamente, aqueles amiguinhos de quase todos os dias e lugares de quase todas as horas, vão ficando em porões quase nunca visitados e os nossos pais, de corações apertados de saudades, vão se tornando promessas e presentes, no natal do “ano que vem”.

O tempo não pára.  Inexorável, impiedoso porque o infinito é a sua natureza, pouco pouco vai nos mostrando que não somos eternos e poderíamos ter feito uma caminhada de mãos dadas com coisas bem mais simplórias, porém bem mais duradouras e prazerosas. Casas confortáveis, automóveis reluzentes, alguém para dividir lençóis e cobertas amornadas de algodão e rebentos para a vida florescer.

Nada de novo no front.  Também somos iguais e a humanidade é o nosso bem maior. Nem penso ter misericórdia de mim. A multidão que me rodeia e eu, copiamos os mesmos erros e acertos, desde que nos tornamos os ditos cidadãos, contemporâneos desta engrenagem civilizada.

Se quiséssemos ou mais dileção filial nós tivéssemos, poderíamos ter vivido mais dias ou momentos casuais ao lado dos nossos pais. Todos nós poderíamos, mas as visitas de dias contados, nos leva para bares em lugares afins, com amigos ou amigas dos tempos do florescer da vida. Quando chega o arrependimento, infelizmente as vezes os nossos pais, já não mais estão a nossa espera, já não podem dividir com todos nós, as benditas ilusões da vida. 

Com este pequeno texto, Léo Ricardo e eu, nos despedimos dos nossos leitores por algum tempo. E hora de repensar modelos de comunicação. Abraço a todos.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

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