Anete: A nova componente da produção em família do Junhão chegou!
A produção literária da família do Junhão é de uma criatividade que nos inspira.
Quem nos foi apresentada agora foi Anete:
Anete é um conto de ficção onde o personagem se apaixona por uma linda mulher que acabou de conhecer. O final é surpreendente quando os enamorados são separados devido a uma situação inusitada.
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‘Junhão’ ganhou uma irmã: Anita
A família continua crescendo. Chegou Analice!
Qual não foi a nossa alegria ao saber que tem mais uma novidade para os leitores morrenses que acompanham os Episódios do Junhão de qualquer parte do planeta: Analice.
Analice é um conto que relata uma estória onde o personagem fica deslumbrado ao encontrar o amor da sua vida. Depois de estarem enamorados e ele fazer muitas promessas, será que vai conseguir cumpri-las ou ela não irá aceitar o casamento proposto?
A fantasia do conto indica que a mente humana é livre, embora muitas vezes seja cerceada, por isso a sinopse não poderá dar detalhes que poderão malograr a intenção da estória ter um final fantástico.
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O escritor Joswilton Lima registrou os seus livros na Biblioteca Nacional do Brasil e está de posse dos Certificados. Para aquisição do livro físico ou digital é só clicar na capa:
FESTANÇA DA VIRADA!!!
JUNHÃO
Quarenta e seis anos de idade. Hoje é o esperado último dia do ano! Enfim o réveillon irá acontecer e, com certeza, ele irá se esbaldar na festança do ano-novo que a cidade vai promover. Mas, indiferente à agitação que ocorre nas ruas antes do festejo, o Alcebíades Júnior ainda dorme. Provavelmente está descansando para aguentar a noitada de curtição que por certo será excelente para o bon vivant. – Afinal, que mal lhe vem?!
De repente o enorme relógio pendurado na parede da sala de visita começa a movimentar o pêndulo e uma zoada estridente soa para anunciar que já são dezessete horas. Porém, apesar da barulheira, ele continua dormindo no quarto contíguo e ressonando alto dando a impressão de que ainda é plena madrugada.
CEIÇA
Sessenta e seis anos de idade. Ceiça está sentada no sofá da sala toda largada, porque está tirando uma madorna após o almoço. No momento em que o relógio toca ela acorda assustada e se levanta com um salto, mas está desnorteada por não saber de imediato o que teria perturbado o seu sono. Atordoada por ter acordado de modo abrupto, caminha com passos incertos até a mesa e tateia sobre o móvel até encontrar os grossos óculos de grau. Após coloca-los no rosto, olha para ver as horas no relógio.
imediatamente fica indignada ao ouvir os roncos do filho e imagina que a zoada promovida por ele foi a responsável em acordá-la. De súbito, os seus olhos quase saltam das órbitas e espuma de raiva. Então fica muito revoltada e esbraveja:
– Mas que “miséra” é essa?!!!… Já são cinco horas da tarde e o inútil ainda dorme o sono dos justos! Vou lá agora para acabar com a patifaria desse sujeito folgado!
E parte rápida com muita raiva em direção ao quarto do filho.
JUNHÃO
Enquanto ele continua dormindo, Ceiça esmurra a porta do quarto com muita violência parecendo querer arromba-la. Com a demora dele em acordar, ela fica mais irritada ainda. Por isso os brados e batuques se sucedem cada vez mais com maior intensidade. Só depois de muito tempo, os gritos e a zoadeira dela conseguem acordá-lo. A contragosto, Junhão se levanta da cama com morosidade e, irritado, pronuncia em voz alta alguns palavrões incompreensíveis para ela por causa da parede.
Está muito enfezado por ter tido o sono interrompido. A seguir caminha devagar até a porta, enquanto limpa a remela dos olhos vermelhos, devido à farra da noite anterior. Encolerizado, está decidido a dar um esporro na mãe a fim de que ela pare com a histeria. Ele detesta o atrevimento da mãe em acordá-lo, principalmente quando está dormindo com ressaca. Quando abre a porta está fulo e, antes que Ceiça pronuncie alguma palavra, ele começa o esculacho com a voz rouca e o hálito com bafo de onça:
– Oh, rapaz!!!… Você é uma criatura sem noção! Precisa aprender a respeitar a minha privacidade! Que sanha é essa de querer invadir os meus aposentos?!… Eu preciso recuperar o meu sono, porque hoje é a virada do ano!
Dominando a situação, Junhão reinicia a bronca:
– Ao invés de você ficar aqui dando faniquito, vá logo pra cozinha preparar o meu desjejum. Logo após, bote o mocotó com pirão, arroz e cerveja. E ande ligeiro, porque se tem força pra querer derrubar a porta, vai ter força para trabalhar.
Assim que ele para com as determinações ela se vira para ir cumpri-las fielmente. Por causa dessa atitude da mãe em dar-lhe as costas, ele fica irritado e dá um esporro:
– “Peraí”, rapaz!… Preste atenção no serviço, porque ainda não terminei de falar! Eu quero terminar o ano e iniciar o próximo fazendo tudo a que tenho direito para ser bem-aventurado no ano vindouro.
CEIÇA
Nesse momento Ceiça perde as estribeiras e brada fumaçando de ódio:
– Mas será o Benedito?!!!… Parece que fizeram um ebó pra mim! O feitiço foi pra o exu das sete encruzilhadas mandar esse encosto perturbar o meu sossego! O espírito ruim alojado no lombo do Júnior vai ter que ir embora com reza braba.
Ainda contrariada, continua planejando um jeito de resolver o problema que a aflige:
– O único jeito vai ser eu partir pra magia negra. Vou ler o livro de São Cipriano da capa preta pra buscar orientações satânicas. Dessa vez eu expulso os diabos que importunam o meu lar.
Entusiasmada com a suposta solução encontrada, diz esperançosa:
– Agora é tudo ou nada! A primeira providência é mandar embora o bicho preguiça que dorme o dia inteiro e ainda se acha cheio de direitos.
JUNHÃO
Percebendo que poderá perder o domínio da situação, ele sorri de soslaio e muda de assunto determinando com a voz engrossada para amedronta-la:
– Escute!… Hoje só vou usar roupas brancas pertinentes à data. Por isso quero que passe à ferro um bermudão, meias e aquela camiseta regata que tem o emblema do meu time tricolor. Quero que todos saibam que sou torcedor do “Baêa”.
De modo autoritário, ordena:
– Se o tênis branco estiver sujo de barro, lave ligeiro e deixe enxuto; coloque atrás da geladeira para secar rápido. Eles devem estar imundos, porque você é desleixada.
A seguir justifica o motivo da sujeira no calçado:
– Sabe como é, as ruas da periferia são esquecidas pelo poder público.
Sabendo que a mãe irá atende-lo a gosto, diz sorridente:
– Eu tenho que ir com uma vestimenta impecável para festejar a passagem para o ano-bom.
Depois, de forma arrogante, ele determina:
– E prepare grana à beça porque preciso curtir a vida como um nababo. Afinal de contas eu sou merecedor de mordomias!
CEIÇA
Não tolerando ouvir tantos desaforos, fica muito enraivada e contesta o filho, mas de modo benevolente:
– Pelo que eu sei, quem festeja a chegada do ano-novo são pessoas que trabalham, que têm bons empregos, com boas condições financeiras e não um pé-rapado que nem você, sem um tostão no bolso.
Aos poucos ela vai aumentando o tom da reclamação:
– Você é um homem que vive sem pensar no futuro. Quando pega em dinheiro corre pra cair na gandaia e “fica duro”, sem grana, em pouco tempo. Na sua mão o dinheiro evapora que nem gás, seu “inresponsável”!
E as queixas não param:
– Veja se é certo uma “miséra” dessa?!… Um sujeito na sua idade precisar da mãe idosa para bancar a sua esbórnia! Isso é um absurdo?!!!…
Para um pouco para retomar o fôlego e depois prossegue:
– Pelo meu gosto você vai continuar aí deitado com a sua dormência mórbida e não ir pra merda de comemoração nenhuma, porque, além de não ter dinheiro, não perdeu nada lá.
JUNHÃO
Ao perceber a alternância de humor de Ceiça ele resolve amenizar:
– “Peraí” mainha, assim você está “jogando duro”!… Deixe de lero-lero e dê logo a grana pra eu ir curtir a minha farra; afinal é a passagem de ano. A minha galera vai estar lá festejando.
Para ser mais incisivo ele parte para o ataque:
– Você já se esqueceu de que está com um débito alto comigo?
CEIÇA
Ao ouvi-lo fazer a cobrança, fica furiosa, coloca as mãos nas cadeiras e indaga nervosa aos gritos:
– Eu estou lhe devendo o que?!… Devendo o quê, Júnior?!!!… Tome vergonha na cara, “cabra” sem-vergonha, que eu não sou “mulé” de dever nada a ninguém! E muito menos a um parasito de pais idosos que nem você, seu ordinário!!!
Depois conclui enfezada:
– Pode tirar o seu cavalo da chuva, porque de mim você não vai rapar nada! E não adianta abrir o berreiro, porque a sua lagoa secou!
JUNHÃO
De repente fica triste e, ao contrário da arrogância inicial, abranda o tom de voz para falar quase suplicando:
– É como dizem…, pão comido é esquecido… No natal desse ano você se esqueceu de me dar o presente de Papai Noel… Negligenciar o filho, além de ser um absurdo é pecado mortal!
Depois engrossa o tom da voz para exigir:
– Por isso eu digo que você está me devendo muito dinheiro, porque tem os juros do capital referentes à compra não efetuada.
CEIÇA
Não aguentando os desatinos do filho com a tentativa de extorsão, explode enfurecida:
– Presente de natal o que, sua “disgraça”!!! Você acha que tem que idade, hem Júnior?!!!… É cada uma presepada que “mim” aparece na vida… Um mondrongo velho desse quer virar criancinha atrás de Papai Noel. Ah, sujeito!…
A seguir ela fica sufocada em ressentimentos e com o rosto em brasas. Rápida, pega um pedaço de papelão para se abanar porque não está aguentando o calor devido à pressão que o filho está lhe dando. Assim que alivia a quentura que sentia, ela reinicia a fala lamentando:
– A gente vive num aperto retado e você vem com a boca mole feito um sanguessuga querendo dinheiro pra ir farrear! Ora, “mim” faça uma garapa, ouviu, malandro?!
Para por instantes, toma um fôlego e depois continua ofegante:
– Por causa das suas esbórnias eu desfalquei o dinheiro das despesas e agora estou devendo o condomínio, luz, mercadinho, padaria e açougue. Mas você é insensível e não quer saber de nada; só quer o venha a nós e, ao vosso reino, nada.
A seguir para um pouco e depois, complacente, abranda a voz para aconselhá-lo:
– Você está numa idade que precisa tomar tino na vida meu filho, porque do jeito desajuizado que anda, até mesmo o seu pai vai ser forçado a roubar para lhe dar as mordomias que exige.
Depois se queixa:
– Eu já estou toda complicada devendo nos bancos e desviando o dinheiro pra ficar bancando as suas farras. E estou idosa pra fazer alguma coisa errada por sua causa e ir parar na cadeia.
Depois ela inquire:
– Agora eu lhe pergunto: e se isso ocorrer, você vai viver como?!… Quem vai lhe dar comida?!… E se eu e Alcebíades morrer de repente?!… Você já parou pra pensar na sua vida como será?!!!
Ao vislumbrar um futuro desastroso para o filho ela desanda a chorar e diz num tom lamentoso:
– Oh, meu Deus, a gente não pode morrer!… Depois de tanto zelo que tive durante a vida cuidando dessa criatura, ter que deixar um filhinho ao léu no mundo, sem eira nem beira, fico em pranto.
E finaliza temerosa:
– Só de pensar no sofrimento que vai ser a vida desse menino sem o pai, acho que a morte pra mim vai ser um alívio…
JUNHÃO
Ouve calado o bolodório da mãe sem demonstrar nenhum tipo de afeição pelos pais. Permanece o tempo inteiro de cabeça baixa simulando preocupação. Mas, na realidade, o seu intuito é exclusivamente articular como conseguir convencê-la a lhe dar dinheiro para ir curtir o réveillon.
Enquanto pensa numa forma de atingir o seu objetivo, os olhos estão arregalados e giram sem parar. Quando ela silencia a fala, ele já tem a solução para o problema que o atormenta. Então começa o lamento fingindo estar choramingando:
– Essa minha vida é ingrata… Eu já não aguento mais ficar ouvindo os meus amigos ficarem me esculhambando. Eles falam que os pais deles são bem de vida, enquanto que o meu é um pobretão que vive às custas de auxílio do governo.
Achando pouco o falso que está levantando, resolve inflamar o juízo da mãe. Aponta o dedo indicador para ela, altera o tom da voz e afirma:
– E digo mais! Os sujeitos maus-caracteres estão dizendo que a senhora cata latinhas nas ruas durante as madrugadas para poder sobreviver.
Ainda choroso a fim de convencê-la, reafirma demonstrando estar penalizado:
– Já pensou mainha, a senhora magrinha do jeito que está, com um enorme saco nas costas perambulando pelos bares para catar latinhas? Isso me dói na alma só de imaginar…
Ele sabe como ferir os brios da mãe. E, para completar a sua farsa, ao terminar de falar ele simula um choro convulsivo para que Ceiça fique mais revoltada ainda.
CEIÇA
Ao sentir-se agredida em sua dignidade, os olhos ficam esbugalhados e as ventas lançam chamas. Explodindo de raiva, vocifera:
– Mas que atrevimento é esse desses maloqueiros, hem Júnior?!… Quer dizer que andam “mim defamando” dizendo que eu, Ceiça, esposa matrimoniada de Alcebíades, um homem trabalhador, vivo catando latinhas de cervejas?!!!
Nesse momento ela sacode os ombros se balançando toda e diz com deboche:
– Ah, “rá”!… Os vagabundos “pegaram pesado” comigo! Quer dizer que eu vivo quieta em meu lar e os pestilentos ficam “mim” esculhambando a torto e a direito em tudo que é lugar?!…
Muito revoltada, promete vingança:
– Mas deixa estar malandragem, que vocês vão saber com quem estão se metendo! Eles vão ver que eu não sou o Júnior, que é um bocó!
Ela está muito nervosa e começa a sentir palpitações no peito. Concomitante, o rosto fica muito vermelho parecendo estar pegando fogo. Agoniada, começa a se abanar com as mãos e ordena ao filho quase gritando:
– Juninho, vá ligeiro na cozinha buscar um copo de água porque estou entalada com falta de ar, sem poder respirar; parece que vou ter um treco!
Ao ouvir o pedido de socorro, Junhão teme que a mãe venha a ter um infarto por causa da sua mentira e vai correndo buscar a água. Enquanto isso Ceiça senta-se no sofá e está se corroendo de tanto ódio. Por causa da raiva que sente, as veias do pescoço estão a ponto de estourar. Os cantos da boca estão com uma espuma branca parecendo visgo.
Quando Junhão retorna e entrega-lhe o copo, ela dá um gole e imediatamente cospe no chão da sala como se estivesse lançando um jato de vômito. Muito nervosa, na mesma hora grita reclamando:
– Mas que diabo de água morna é essa, sua “disgraça”?! Pra mim você traz água da torneira! Enquanto você, o reizinho daqui, só bebe água mineral e se for gelada! É por causa do seu descaso comigo que os vagabundos estão dizendo que eu cato lixo!
Imediatamente Junhão tenta se redimir:
– Mas isso ocorreu por causa da pressa em lhe socorrer… Pensei que estava morrendo.
Ainda revoltada, Ceiça o repreende:
– Pressa nada, seu cabeça de bagre! Quem está pra morrer é a sua madrinha! Isso é porque você não se importa comigo e só faz as coisas pra mim de má vontade.
Novamente ele vai correndo para buscar a água mineral gelada. Estando sozinha, ela fica resmungando e, ao mesmo tempo, fazendo caretas e esmurrando a palma da mão com o punho fechado. – Talvez esteja prometendo espancar os seus caluniadores.
Quando Junhão retorna e entrega-lhe o copo ela sorve todo o líquido, lambe os beiços e retoma a conversa com a autoridade que só ela tem:
– Agora “mim” diga o nome desses meliantes da alma sebosa, porque vou quebrar eles no pau! Onde já se viu querer “mim defamar”! Ai, ai… A partir de agora o “bicho vai pegar”. Eles vão ver com quantos paus se faz uma cangalha!
JUNHÃO
Percebendo que a sua fraude poderá tomar um rumo desastroso com Ceiça querendo atacar os seus amigos, apressa-se em engendrar uma mentira a fim de livrá-los da temível vingança. Enfático, resolve inventar personagens fictícios:
– Calma mainha, que agora eu vou dizer o nome daqueles miseráveis: foi o Topi e o Gijo, são os irmãos gêmeos que difamaram a senhora. São dois maus elementos da pior qualidade.
CEIÇA
Ao ouvir a informação ela fica desconfiada, coça a cabeça com o dedo indicador por entre os bóbis e pensa por instantes olhando para o filho. Depois diz reticenciosa:
– Aqui pra nós, esses gaiatos não serão a mesma pessoa? Júnior, Júnior… não queira “mim” enrolar, porque eu tenho uma boa memória.
A seguir relata um fato ocorrido na época da sua infância:
– Eu lembro muito bem quando era molecota lá no interior. Todos os dias ia na casa da vizinha para assistir um programa na tv que tinha um boneco assanhado e o nome do sujeitinho era Topo Gigio.
Ainda remoendo a suspeita sobre o que o filho lhe disse, está sentada com as pernas cruzadas. Depois cruza os braços e apoia o queixo com uma das mãos. A seguir cerra as sobrancelhas, franze a testa, faz bico com os beiços e fica observando-o com o olhar fixo, a fim de observar a reação dele.
JUNHÃO
Ao perceber a atitude de desconfiança por parte da mãe, ele tenta se defender dizendo:
– Os gêmeos não têm idade para serem da época da sua infância. E também a senhora fala de um sujeito, mas eu conheço dois malandros.
E continua reafirmando a sua estória demonstrando convicção. Quer a todo custo que ela acredite na sua versão dizendo empolgado:
– Eu garanto que são pessoas diferentes, mainha! Juro por Deus! Quero ver a senhora morta se eu estiver mentindo!
A mãe permanece calada e ainda na mesma posição. Sentindo-se acuado e sem querer dizer o nome de amigos, ele fica aflito e continua argumentando para amedronta-la:
– O que estou lhe dizendo é a mais pura verdade! Eu não sei o nome daqueles miseráveis! Só sei o apelido porque eles têm as orelhas grandes e o narigão.
Para intimidar a mãe, continua inventando:
– Soube que a família deles veio de outro estado e são bandidos “barra pesada”. Não vá se meter com eles, porque o pai é perigoso e faz trambiques na Ilha dos Ratos. Portanto não vá criar problema com essa raça ruim.
CEIÇA
Fica contrariada ao saber que o filho tem amizades de baixa estirpe, mesmo assim aconselha-o de modo indulgente a escolher melhor as suas amizades:
– Juninho meu filho, já cansei de falar pra você não andar em meios ruins. Se saia dessa laia de focinhudos porque não vale a pena. Você é um menino do bem, direito, honesto, portanto, tem que andar na companhia de pessoas do seu nível.
E continua alertando o filho:
– Ficar se misturando com gente que não presta dá nisso. E o pior é que meu nome “vai de bolo”; justo eu, que só saio de casa num caso de necessidade.
Depois de analisar a situação em que está envolvida, fica convencida da necessidade de limpar o seu nome e determina empolgada:
– Já tomei a minha sábia decisão! Não vou deixar que vagabundo “homilhe” o meu filhinho. Por isso vou lhe dar muito dinheiro que tenho guardado a sete chaves para usar num caso de necessidade.
Depois diz para incentivá-lo:
– Quero que se exiba com esnobismo, como um rapaz rico para verem que não somos pedintes. E esbanje o dinheiro a torto e a direito.
Afobada, corre para o quarto e volta rápido trazendo consigo um enorme maço de cédulas embrulhado em um lenço velho, amarelado pelo tempo. Afetuosamente, entrega o pacote bem amarrado dizendo:
– Tome meu filhinho, esse dinheiro é todo seu; pode gastar a rojão. Hoje eu quero que você ostente pra todos verem que você é superior a eles.
JUNHÃO
Ao ouvir as palavras mágicas ele quase desfalece. Era tudo o que queria ouvir. Então, rapidamente embolsa o pacote sem conferir o montante do dinheiro, por medo que ela se arrependa e o tome de volta. Com o dinheiro enfiado no bolso ele fica muito contente e ajoelha-se no chão com os braços erguidos para agradecer:
– Muito obrigado meu Deus! Muito obrigado minha querida mãezinha! Eu tinha certeza de que você não ia me “deixar na mão”! Por isso eu sempre digo à galera que você é a melhor mãe do mundo!!!
Refeito do ato de gratidão e, apesar de estar muito satisfeito, ele volta a ficar bruto e ordena:
– Agora vá providenciar a comida que pedi, porque essa lenga-lenga me deixou com mais fome ainda. Vou tomar banho enquanto você prepara o rango. Portanto, seja rápida porque já estou atrasado!
Após tomar banho é atendido em todas as suas solicitações e fica empanturrado. Às nove horas da noite sai apressado, todo arrumado e perfumado, com o montão de dinheiro bem guardado no fundo do bolso para financiar a farra.
Como ainda tem uns trocados no bolso, prefere não usar nenhuma cédula que está guardada no pacote, porque quer preservar toda a grana para gastar na noitada. Para não perder tempo, embarca em um táxi e parte rumo à festa. Irá pagar a viagem com a sobra do dinheiro que já tinha.
Ao chegar no local marcado, encontra os amigos Guto e Nando. Estavam ansiosos aguardando por ele o cumprimentam efusivos, embora reclamem:
– Poxa Junhão, pensamos que você ia falhar com a gente! Demorou pra zorra!
E informam satisfeitos:
– As gatas que você mandou convidar já estão aqui agoniadas pra te ver. Trouxemos a Janysleide, a Gleidyslene, a Suzylane e a Katylori para você escolher de acordo com o seu gosto.
Junhão justifica o motivo do atraso:
– Demorei muito porque a velha lá em casa ficou embaçando para poder liberar a grana. Mas, no final, depois de muito pirraçar, liberou um monte de dinheiro que fiquei acanhado de verificar qual era o valor do montante.
E continua narrando para os amigos a sua suposição:
– Rapaz…, estou desconfiado que a coroa praticou um grande assalto! Acho que a velhota surtou, porque ao me entregar um montão de dinheiro, mandou eu estourar tudo no revéillon!
Muito contente em estar abonado, diz aos amigos:
– É tanto dinheiro que só vou ver o montante na hora de pagar a conta das nossas despesas.
Depois de expor a sua vida familiar, ele grita com fanfarronice para todos os convivas:
– Por causa da graça alcançada, hoje todas as despesas da farra são por minha conta. Ninguém paga nada aqui; é tudo meu, galera!!!
Todos ficam alegres com a decisão dele e comemoram. As garotas imediatamente se aproximam para ficarem junto a ele. A seguir ele chama os dois amigos e ordena:
– Como hoje eu sou o rei da balada, quero ficar com duas gatas: a Janysleide da cor de jambo e a galega Katylori que é loura a pulso e tem o cabelo de chapinha. Quanto a vocês, que se virem com as que restaram, firmeza?!
Imediatamente os amigos assentem, afinal ele pode exigir porque é quem irá pagar as contas da farra. O Junhão estando poderoso por estar cheio da grana continua determinando:
– Agora vocês vão lá falar com o gerente do restaurante e digam que eu quero um garçom servindo exclusivamente a minha mesa.
A seguir ordena:
– E mandem que ele sirva à Junhão somente gim burnetts francês, em doses generosas com água tônica, bastante gelo e três rodelas de limão taiti. E digam que eu só aceito ser servido em copo alto de cristal fino.
A seguir, os amigos viram as costas para ir comunicar as exigências dele. Ao vê-los sair, Junhão fica enfezado e grita para eles:
– Oxente, que pressa é essa?!… Ainda não terminei de falar e vocês já querem se picar sem ouvirem o restante?! Mandem o garçom vir imediatamente, porque não gosto de esperar!
Logo o funcionário chega e ele começa a impor as suas ordens com arrogância:
– Quero que seja subserviente ao me servir. Às vinte e três horas e quarenta minutos traga dez garrafas dos melhores espumantes e champanhes em baldes com gelo, para que sejam estouradas exatamente à meia-noite, na virada do ano.
Demonstrando ser imperioso, ele dita o cardápio para o garçom:
– Durante a noite quero que traga um peru inteiro assado, arroz branco com uvas passas, salada tradicional de maionese e leitão assado. Também traga costela de boi marinada na cerveja e assada no forno a lenha.
A extensa lista de pedidos continua:
– Quero pernis grandes de porco assado, lombos de bacalhau à Zé de Pipo e saladas frias de bacalhau desfiado com ovos cozidos, ovos de codorna, azeitona sem caroço, batata, alface, tomate e azeite de oliva importado.
Entusiasmado em fazer os pedidos para a sua comilança, continua:
– É necessário trazer farofa de cuscuz úmida com caldo de frango caipira cozido, fritura de pedacinhos de bacon, presunto, calabresa defumada, ovos cozidos esfarelados e tempero verde, tudo misturado.
Finalmente conclui:
– Também traga farofa de farinha de mandioca misturada com a de rosca. Umedecer com fritura de bacon, linguiça defumada e cebola ralada. Misturar ovos cozidos picados, cheiro verde e frutas cristalizadas: damascos, ameixas, uvas passas, figos e tâmaras.
Depois informa:
– Junte várias mesas, porque os meus convidados são trinta pessoas, por enquanto. Não se preocupe que vou dar gorjeta muito gorda para todos os serviçais.
CEIÇA
Está sozinha em casa curtindo a sua solidão e procura se distrair assistindo programas na televisão. Nesse mesmo tempo, o restaurante está começando a servir os pedidos de Junhão e dos convivas dele. Muito animado com as músicas que tocam no ambiente, ele se esbalda de tanto comer e beber. De vez em quando levanta da mesa e vai saracotear sambando, sempre abraçado com as duas lindas gatonas.
Enquanto isso, Ceiça está sentada no sofá comendo pipocas e vê entusiasmada a maratona de São Silvestre, televisionada na virada do ano. Muito tensa, torce para que um brasileiro ganhe a corrida para algum etíope. Porém, no final, fica frustrada com o resultado e se conforma. Finalmente chega a hora da contagem regressiva para anunciar o fim do ano velho.
Num ímpeto ela fica de pé e bate palmas repetindo em voz alta os números ditados pelo locutor para declarar a chegada da zero hora e dar início ao novo ano. Quando os fogos estouram ela fica contente, dá pulos de alegria e grita eufórica:
– Vai-te embora “miséra” com essa ruma de vírus!!!
Enfim o ano-novo chega trazendo novas esperanças. Então ela faz orações fervorosas pedindo a Deus e a todos os santos para que o seu filho se aprume na vida, porque deseja ardentemente que ele se regenere.
Passado o momento de euforia ela volta a se sentar no sofá para continuar assistindo as comemorações na televisão e uma tristeza profunda emerge do seu âmago. Sofre porque o seu esposo não conseguiu ligar para desejar-lhe um feliz ano-novo. Justifica dizendo para si que possivelmente ele deverá estar em alguma localidade que não tem sinal telefônico.
E lamenta a falta de contato do marido:
– Tenho pena de Alcebíades. O coitado está sozinho no cafundó-do-judas, nessa virada de ano. Enquanto isso, aqui na capital, o povaréu está enlouquecido nas farras.
Mas, apesar dos pesares, continua assistindo as reportagens para ver a festa. Fica assustada com a enorme quantidade de pessoas nas ruas e lamenta:
– Oh, meu Deus! Proteja o Juninho porque deve estar espremido no meio dessa bagunça, nesse mundo cão, coitadinho dele… Esqueci de dizer a ele pra tomar cuidado, porque nesse período festivo os ladrões estão nas ruas, roubando tudo.
Depois ela vai dormir tristonha.
JUNHÃO
São seis horas da manhã do dia primeiro de janeiro. As ruas estão repletas de bêbados. Alguns deles mal conseguem andar de tão trôpegos tentando chegar em casa. Enquanto outros, rendidos pelo álcool, dormem nas calçadas. Ali ou acolá se vê alguém deitado na sarjeta com a cara sobre o próprio vômito, não importando se é homem ou mulher.
Ao ver essas pessoas ébrias, largadas, imundas e amarrotadas, nem de longe se parecem com aquelas que saíram alegres de casa na véspera, bem-arrumadas de branco. Nas ruas o lixo está espalhado e a imundície é geral mostrando o triste início de ano.
No entanto, o Junhão continua sentado à mesa do restaurante e, apesar de estar bêbado, mantém-se aparentemente altivo devido à sua arrogância. Apesar dos olhos estarem decaídos, vermelhos iguais a brasas, com a voz embolada dando o aspecto de estar bem grogue, ele está atento e observando tudo do seu posto.
De repente ele vê quando os amigos pedem mais comida e bebida para ser serem desperdiçadas, porque já não conseguem consumir mais nada. Nesse mesmo tempo, observa as garotas exigindo montes de marmitex para levarem comida para os familiares delas que estão em casa. Então Junhão fica revoltado vendo os absurdos sendo cometidos e se levanta da cadeira a muito custo e esbraveja:
– Já chega!!!… Ninguém aqui pede mais nada, às minhas custas! Vou pedir ao meu serviçal para trazer a conta porque já vou embora.
E grita raivoso:
– Fora daqui sua cambada de aproveitadores!
Com a expulsão, a galera se retira cabisbaixa. O garçom já cansado de tanto servi-lo, corre para atender a ordem com urgência. Quando retorna, entrega-lhe a enorme conta. Junhão, embriagado, ao receber a nota fiscal, estende o braço ao máximo que pode para tentar enxergar o que está escrito. Pelejando para ver o valor total dos gastos ele faz beiço e fecha um dos olhos. Apesar dos esforços não consegue decifrar o que está na nota.
Revoltado por não ter conseguido, devolve a nota e, no intuito de humilhar, dá uma bronca no garçom com a voz pastosa:
– Por acaso eu lhe perguntei quanto foi a despesa, seu incompetente?!… Eu disse apenas que quero pagar e pronto! Cabe a você que está aqui nesse empreguinho mixuruca, trabalhar e cumprir a sua função. Portanto, faça o que mandei!!!
Apesar de ter sido menosprezado, o funcionário nada diz e apenas espera que esse sujeito grosseiro, antes um ilustre cliente, também cumpra a sua função que é o pagamento daquilo que foi consumido.
Junhão volta a se sentar, arrota alto e dá seguidos soluços dando a impressão de que poderá vomitar sobre a mesa a qualquer momento. Depois, com baba escorrendo pelos cantos da boca e o olhar decaído, ele vê o garçom parado ao seu lado e indaga com arrogância:
– Ah, já sei!… Você está aí carrancudo é porque quer a minha grana. Não se preocupe que vou pagar tudo, tim-tim por tim-tim, do que consumi nesse pardieiro fuleiro.
Alcoolizado, sem muito domínio sobre o que faz, enquanto fala ele remexe os bolsos com dificuldade procurando o dinheiro enrolado no lenço que a mãe lhe dera. Com a longa demora dele remexendo os bolsos, o garçom fica apreensivo imaginando que o cliente não tenha dinheiro suficiente para pagar a enorme despesa e por isso está tapeando.
Então fica imaginando no azar que teve ao ser designado para servir a um picareta pançudo. E lamenta porque perdeu de ganhar muitas gorjetas de outros clientes decentes. Mas logo fica despreocupado ao vê-lo, após muito esforço, puxar do fundo do bolso um pacote enorme que presume ser de dinheiro.
Junhão, com a voz arrastada, mas imperiosa, continua ditando as ordens:
– Estou lhe entregando esse pacote de dinheiro. Tome cuidado, ouviu bem! Não desembrulhe aqui porque pode ter ladrão à espreita. Fique esperto porque o que mais tem nessa cidade é larápio.
Preocupado com o dinheiro, recomenda:
– Por isso leve a grana para contar lá dentro no escritório e pague a conta. Depois distribua gorjetas gordas para você e seus colegas, inclusive dê ao gerente que foi gente boa comigo. E não esqueça de trazer o troco, porque é meu.
O garçom continua parado porque está pasmo com tamanha confiança e generosidade daquele “sujeitão” boçal e analisa o quanto poderá pegar de dinheiro para si. Ao vê-lo ali parado, Junhão fica enraivado e grita cuspindo baba para todos os lados:
– Chispa daqui sujeito! “Se pique” e vá fazer o que mandei! Já estou enjoado de ver a sua cara de songamonga perto de mim a noite inteira! Se fosse uma garçonete, tudo bem…
Assim que o garçom sai ligeiro ele olha para a mesa e percebe que a sua galera já havia saído de fininho sem se despedir dele. Devido ao uso excessivo da bebida alcoólica, esqueceu-se de que havia expulsado os amigos da sua mesa e todos foram embora envergonhados. Enfim o Junhão está sozinho e comenta tristonho:
– A velha Ceiça, a minha mãezinha querida, tem razão quando diz que eu devo escolher melhor as minhas amizades… Veja se ela não tem razão?! Até as sirigaitas que estavam dizendo o tempo todo que me amavam, sumiram de repente…
Solitário e devido à embriaguez, ele fica emotivo e começa a chorar quando se lembra da mãe com ternura. Nesse momento, inesperadamente, ele se vê cercado por vários seguranças acompanhados do gerente e do garçom. Na mesma hora enxuga as lágrimas e, sem demonstrar qualquer receio, pergunta imperioso:
– “Qualé” a de mesmo, “parças”?!… Vieram para agradecer as gorjetas que dei? E cadê o troco?! Estou esperando o meu dinheiro, avia!
O gerente está explodindo de raiva e diz:
– Ninguém aqui é parceiro seu porque você é um vagabundo! Um estelionatário!
Nesse momento Junhão se levanta rápido da cadeira e reage enérgico:
– “Peraí”, eu sou um cidadão e exijo respeito! Vou mandar fechar essa espelunca amanhã, porque hoje é o feriado do primeiro dia do ano!
Ainda enraivado o gerente revida:
– Você tem lá condições de fechar coisa nenhuma, seu falsário!
Mais uma vez sentindo-se ofendido o Junhão reage:
– Quero que você, que é uma coisinha à toa, um bostela, prove o que está dizendo!
O gerente já está se cansando com tanta conversa-fiada, então resolve esclarecer a situação, apesar de achar que ele é sabedor de tudo:
– Você chegou aqui “de boa” tirando onda de playboy, de filhinho de papai e trouxe a sua gangue que se escafedeu e deixou você, por ser grandão, como de “boi de piranha” para tentar enganar a gente.
Revoltado, afirma:
– Fugiram depois de darem um “baque” financeiro enorme aqui no comércio, comendo e bebendo tudo do bom e do melhor. Você também só não se escafedeu porque não aguenta nem ficar em pé.
Nesse momento Junhão retruca:
– E daí, se os meus amigos “se picaram”?!… O que vocês têm a ver com isso? Na hora que cheguei, informei que o pagamento da conta era da minha responsabilidade. Eu só não fui embora porque estou aguardando o meu troco!
Depois ele sorri com cinismo e debocha:
– E por falar nisso eu quero o meu troco! Mas já bispei tudo! Vocês estão forçando a barra pra ficarem com o meu dinheiro.
Então o gerente fica muito irritado e afirma:
– Que troco, vagabundo?!… Hoje a moeda corrente é o real e você tentou pagar a conta com cédulas antigas sem valor nenhum. São notas de cruzeiro, cruzado, cruzado novo e até de mil réis.
Muito irritado, continua a alegar:
– Como se isso não bastasse, você ainda esculhambou geral, com o estabelecimento e com o garçom que lhe serviu durante a noite inteira.
Junhão fica abismado com a informação das cédulas serem falsas e solicita com humildade:
– Rapaz, eu não acredito nisso… Ligue pra minha mãe que ela esclarece tudo. Foi ela quem me deu o dinheiro.
Novamente o gerente retruca:
– Não vou ligar pra ninguém, malandro! Lá na delegacia você pede para ligar para a sua comparsa. Se prepare porque a polícia está chegando para lhe dar o seu troco, vigarista!
Sentindo que a sua situação está piorando Junhão implora:
– Espere aí, senhor!… Não precisa envolver a polícia nisso. Basta falar com Ceiça que é a verdadeira culpada…
Nesse momento os policiais chegam e tomam conhecimento da situação. A seguir algemam Junhão e o embarcam no camburão. Nesse momento notam que ele está com a calça toda urinada. Não sabem se foi por medo da prisão ou por preguiça dele em ir ao mictório enquanto estava bebendo.
Depois de trancafiado na pequena cela da viatura, saem em desabalada carreira com as sirenes ligadas. Desconfortável onde está, Junhão fica espumando de raiva e com um ódio mortal da mãe. Enquanto é transportado ele resmunga destilando o seu veneno contra ela de modo ferino:
– Mas que sujeita ordinária da cara murcha é essa tal de Ceiça! A malandra da cara de sagui é falsa que dói! Eu devia ter desconfiado que aquela crocodila estava armando pra me arrombar!
Muito contrariado e rancoroso afirma:
– Aquela falsária não devia ter feito essa fuleiragem comigo. Ela vai me pagar por causa desse vexame que estou passando. Quando chegar na delegacia vou denunciar ela. Quem viver verá!
Revoltado, ainda comentando, ele entorta a boca e amolece a língua para arremedar Ceiça:
– Filhinho, pode gastar todo o dinheiro e ostentar bastante. É todo seu!
Depois endireita a boca e lamenta raivoso:
– Vigarista!!!… Pura falsidade dela e eu caí feito um patinho.
A seguir ele fica conformado quando tem uma ideia miraculosa:
– Mas eu me saio dessa cana numa boa, na audiência de custódia. O juiz, doutor Adalgiso, é tio do meu amigo Lelinho e eu falo pra ele que foi a Ceiça quem mandou eu passar o dinheiro falso.
Depois articula a sua vingança:
– Com certeza ela vai me pagar por essa maldade e vai ser punida pela lei com cinquenta anos de cadeia.
Pouco tempo depois a viatura estaciona na porta da delegacia e ele é conduzido algemado com os braços para trás. A sua embriaguez já evaporou faz tempo. Por isso é arrastado em direção à entrada da repartição e anda ligeiro com o corpo dobrado para frente e o rosto penso quase arrastando no chão porque ele teme ser filmado ou fotografado pelos repórteres. Ele não quer aparecer nos noticiários como um grande falsário do festival da virada e chefe de quadrilha por culpa da genitora.
CEIÇA
Enquanto isso, em um determinado apartamento na Pituba, Ceiça, a zelosa mãe e dona de casa, cuida dos afazeres domésticos reclamando da ausência do filho:
– Misericórdia, meu Deus!!!… Esse menino não tem jeito. Todo mundo que curtiu a confraternização de fim de ano já está em casa com as suas famílias.
Revoltada com o sumiço dele, critica:
– Mas ele não; o sujeito é insaciável e só sai da farra na bagaceira do fim da festa. Só vem embora quando acabar o dinheiro que lhe dei.
Depois fala amenizando o desatino do filho:
– Também pudera, a culpa é minha porque fui encher os bolsos dele com muita grana… Endinheirado e posudo do jeito que é, deve estar sendo assediado pelas quengas onde estiver.
Mas, para ela, o Junhão não tem defeitos e sempre culpabiliza alguém para encobrir os erros do filho. A seguir se exime da culpa e comenta chateada:
– Eu sei que o menino é assim porque as fulanas ficam dando em cima dele por ser lindo e maravilhoso. Ah sujeito relaxado, não sei a quem puxou!… – Conclui satisfeita.
Findo os comentários ela vai ocupar o tempo arrumando a casa, enquanto espera o filho chegar. Mas, quando vai trocar os lençóis da cama tem uma enorme surpresa ao levantar o colchão dela para forrá-lo. Quase desmaia ao perceber que havia cometido um terrível engano na noite do dia anterior, porque estava com o juízo agoniado.
No afã de adular o seu filhinho querido, quando correu apressada para pegar o dinheiro, apanhou o pacote errado por engano. Havia entregue a ele o lenço onde guardava as cédulas antigas que coleciona, ao invés daquele onde esconde as suas economias.
Ao perceber o engano, ela se desespera e exclama aflita:
– Mas que menino desajuizado! Ele fica tão louco pra ir farrear que esqueceu o celular em casa. E agora meu Deus?!… Como vou localizar ele no meio daquele mundaréu de bêbados pra ir levar o dinheiro?
Por ter mandado ele gastar muito dinheiro, agora está sem saber como resolver o problema. Então, ela põe as mãos na cabeça e começa a correr pela casa de um canto para outro gritando feito uma louca e fazendo escândalo:
– “Mim” acode Jesus e socorre o meu Juninho!!!… Ligeiro Senhor!!!
Ceiça está doida varrida porque não tem como se comunicar com o filho para ir socorrê-lo. Enquanto isso o Junhão está na delegacia sofrendo as agruras da lei por causa da falta da atenção de uma mãe desvairada.
JUNHÃO
O juiz da audiência designado para a audiência de custódia era desconhecido e determinou a prisão preventiva dele a ser cumprida no presídio de Mata Escura. Estando encarcerado, resta-lhe apenas a resignação de aguardar a mãe procura-lo em todos os hospitais, necrotério, espalhar cartazes nas ruas comunicando o seu desaparecimento e, por fim, delegacias.
Estando numa cela amontoado com outros cento e cinquenta presos, fica o tempo inteiro encolhido num canto por temer represálias dos colegas de infortúnio. Tristonho, perde a arrogância e aguarda pacientemente que a mãe consiga localizar o restaurante para pagar o débito e retire a queixa na polícia.
Presume que ainda terá de aguardar muito tempo até a justiça expedir o alvará de soltura. De repente uma dúvida começa a corroer o seu juízo e ele murmura com raiva:
– E se aquela miserável resolver cumprir as ameaças que vem fazendo de me expulsar de casa? Com certeza a sujeita ordinária tramou tudo pra lascar comigo.
Autor: Joswilton Lima