Carlos Karoá escreve: ‘CADUQUICE OU. ALZHEIMER’

Tia Maria sempre foi a mais ” danada” da família. Esta sentença alardeada no meio da parentada, tá nas raízes de todos os sobrenomes brasileiros, pois é comum ter alguém merecedor do apelido de “capeta”, no seio das linhagens dos clãs. Quando Tia Maria habitava a infantilidade, não brincava de bonecas igual a todas as meninas da sua turminha, vivia a perambular por ruas e quintais, praticando peraltices pra se chamar de coisas que ninguém fazia. Na escola, os breves momentos de recreio, não a impedia de despender energia em alguma coisa que a fizesse pinotear, correr, pular, jogar cabriolas, pois quietude não estava escrito nas entrelinhas da sua cartilha. As rodas do tempo a fez moçoila, quando o corpo desperta olhares dos rapazes em flertes fortuitos, mas a vontade de usar batom e usar decotes chamativos ainda não lhes fazia palpitar o coração. Nas noites de lua branca, derramando prata no chão vermelho, Tia Maria era a primeira a “encambar” os braços das amigas vizinhas e correr para o terreiro, entoando a beleza das cantigas de roda.  Pertinente e consoante, o apelido de tia Maria, na Seara de quem a conhecia, era a garota “trepidante”.

Lá, no chamado “tempo do atraso” quando as mentes iluminantes mergulharam na escuridão da inconsciência, diziam-se que vovó ou vovô, estavam começando a caducar. Já não lembravam dos nomes da parentela, desconhecia as feições amigas, tornava-se repetitivo em inquisições ou respostas e esta ausência de memória os condicionavam a merecer cuidados. Permaneciam no seio familiar, em vigília e zelo permanente observando os seus novos limites, a inocência pode ser divertida, porém por ignorância, também poderia ser trágica. Hoje, quase um século depois, os males do corpo também ganharam nomes mais abrangentes: o velho “difruço” agora é um leve resfriado, a terrível lepra mudou para hanseníase e a conhecida caduquice agora é Alzheimer. Se antes ser caduco era engraçado, sua correlata agora preocupa, é de difícil aceitação, o mundo moderno é pragmático, prático, frio e despido de comiseração. Nos dias de agora, vovó ou vovô, com esta enfermidade, o destino do desafortunado, normalmente, é a internação. Foi o que aconteceu com Tia Maria.

Toda a geração doirada, aquela que viveu as venturas dos também doirados anos 60, é por adição aritmética septuagenários, a matemática não permite enganos e nestes termos, é hora de literalmente cuidar do esqueleto. É tempo de repensar costumes, perder os maus e adquirir os bons vícios, priorizar a funcionalidade, manter uma distância racional da confortabilidade do velho sofá e se tornar um diarista da salubridade corporal. Ative o cérebro reuniões e jogatinas com amigos o deixa apto a resolver enigmas. Não negligencie a saúde das pernas, são elas que nos levam pro banheiro, sem a cortesia duvidosa de terceiros.

A longevidade é uma benção, torná-la verdadeiramente bendita, é um dever do felizardo.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

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