A afirmação científica de que o planeta Terra viaja a mais de 100 mil km por hora, me deixa de mão no queixo, pensativo, com uma vontade danada de não acreditar nesta sentença, mas, por falta de subsídios para discordar, engulo o sapo sem questionamentos. Entretanto, acredito piamente numa teoria pessoal, de que na imensidão do caminho trilhado pelo nosso planeta, em distâncias interplanetárias de bilhões de quilômetros, existem bolsões distintos e praticamente invariáveis de substâncias ou essências gasosas, que apesar da espantosa velocidade desenvolvida pelo gigantesco bólido, são necessários alguns meses para cumprir esta travessia, daí o frio intenso nos meses do inverno e o calor extremo em meses de verão. Acho que é cíclico os fenômenos ligados à natureza pois vez em quando, o calor passa dos limites ou o frio deixa “pintos” que não piam, precisando de pinças, na hora de fazer “xixi”.
Em meados dos anos 60, trouxe de mudança, a minha escova de dentes. A maleta não era um saco e o cadeado não era um nó, tinha um guarda roupa “meia boca” pra guardar as minhas coisas. Estudante do Colégio Senhora da Graça, igual a todos os alunos, tinha deveres a cumprir e um deles, era responder a chamada nas aulas de educação física às 5:30 da manhã, pelo menos duas vezes na semana. O frio era intenso e a indumentária carente de algodão: Uma camiseta, um calção e uma basqueteira forrada com meias pra proteger o dedão. A intenção daquela “malvadeza” madrigal, era forjar homens resistentes às intempéries da vida, deixar aqueles garotos pros desafios profissionais, que não tardariam a lhes bafejar o rosto. Saíamos a correr pelas ruas úmidas, nas frias manhãs, sem um “pé de pessoa” a nos observar. O destino final era o depósito de cerais perto da “corrente”, o velho “Silos” bem mais quentinho, onde aprimorávamos as nossas sofríveis habilidades físicas.
Correr, pular, flexões braçais, abdominais e mais algumas peraltices saídas da cachola do nosso inesquecível professor Manoel Pedro. Para mim, o mais importante cidadão morrense da época. Respeitado pela sociedade, admirado e querido pelos seus pupilos. Falo seu nome, as lágrimas são inevitáveis. Ímpar, admirável, único.
O início das noites, quando nos chegava a estação mais fria, uma neblina semi glacial estava sempre a nos rondar, deixando as ruas vazias, sem a companhia de paqueras e namoradas, pois sair de casa com garoa, os pais evidentemente proibiam. Sem outra alternativa, grupelhos de estudantes ou não estudantes, ficavam sob a marquise do “Lactário” falando “abobrinhas” pra passar o tempo. Era o Santos de Pelé, o Corinthians de Rivelino, o Botafogo de Garrincha, o Fluminense de Samarone, um novo sucesso de “The Beatles” ou a dengosa melodia “Aquele beijo que te dei” do incomparável Roberto Carlos, que até hoje ainda mata gente de saudades.
Alguns iam folhear revistas na biblioteca, quem tinha alguns trocados iam pro Café de Eunice, quem não tinha nada esperava a luz dar o segundo sinal pra ir embora. Deus dos céus, a gente era feliz demais da conta, se pudesse voltar o tempo, começaria tudo outra vez com o coração, dando pulinhos de felicidade.
O frio nas madrugadas em louvores Divinais ou Beneditinos, já foi decantado e repisado aqui em outras leituras. Acredito que os homenageados, do alto dos seus encantos, nos davam forças pra sair das cobertas tépidas e amornadas, para enfrentar as ruas geladas e frias, iguais a bundas de pinguins. Gente o frio este ano voltou, tá retado. Termômetro acusando “9 graus” quando se avizinha a hora do,”Lobisomem”
Sair pras ruas. Tirem dos armários a famosa blusa tipo “burro quando foge”, enrolem os cachecóis encardidos modelos “Velho Bizunga”, vejam se ainda se encontra a venda, as capas iguais as usadas pelo velho Clécio, vejam se Ércio ainda guarda nas prateleiras, alguma meota de Serra Grande, porque o “Lactário não existe mais e lá no Kok’s Bar, é tudo descampado, faz um frio de lascar o cano. Bem vindos ao velho frio de Morro do Chapéu.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.