Em meados dos anos 60, já éramos bicampeões mundiais de futebol. Não se sabe o porquê, mas os deuses do Olimpo escolheram a Terra-Brasilis para ser a rainha deste esporte, que se tornaria o mais popular em todo o planeta. Três décadas depois, mais três títulos foram arraigados por justiça e merecimento, ganhando a admiração e o respeito do resto do mundo.
Pentacampeões, único nos gramados de todas as fronteiras.
Deveríamos criar ferramentas mantenedoras do panteão que nos foi dado com tanto amor e sacrifícios. Deveríamos, mas o culto foi abandonado, o rei está morto e os príncipes envelheceram. Escolheram para chefiar a tropa, um chefe d’além mar, sem raízes tupiniquins, sem lágrimas para chorar se por acaso a trupe fosse batida. Contratos devidamente formalizados em tribunais, lhes garante os subsídios sem que precise derramar, lágrimas de “crocodilo”. Os “soldados”, estes endinheirados, descompromissados, são na maioria desconhecidos, já faz muito tempo que não moram por estas bandas de cá. Se antes tínhamos o respeito alheio, hoje a “chacota” nos permeia.
Apontar soluções, porém, está além da minha vã filosofia.
“Quien sou yo”
Nos saudosos anos 60, aqui na terra do frio, os treinos de futebol eram marcados entre partes, no famoso “boca a boca”. Sem telefones residenciais, evidentemente sem celulares, a coisa tinha raízes na boa vontade, no amor ao esporte, interesses menores, não faziam parte do cardápio. Curiosamente, a centenária rua do fogo, tinha o domínio absoluto no número de contendores.
Senão vejamos:
Júlio Pecador
Júlio Magro
Os irmãos Lourinho e Emilson (Baixão)
Os irmãos Laércio e Raimundo
Os irmãos Jomarito e Renato
Os irmãos Jurinha e Arturzinho
E o elegante meio campista Valmir bancário
Fora da rua do fogo, os irmãos Zon e Isinho
Os primos Getúlio, Laurinho e o colega
Silas Monteiro, que nas tardes de treinos, trocava o trompete pela defesa do gol. Antônio Cacá, Lima e outros servidores do DERBA, cujos nomes o tempo roubou de mim, estavam sempre na lista dos convocados. Bons tempos, quando se fazia esporte, com o suor dos abnegados molhando a camisa, onde o armário de guardar chuteiras, era no coração.
Nos chamados tempo do atraso, o nosso campo era bem esmirradinho. As traves não tinham redes, em volta não tinha muros, o piso não tinha grama e fazer os limites de cal nas linhas de marcação, era um ” Deus nos acuda”, o terreno arenoso em nada ajudava. Em jogos amistosos com as cidades vizinhas, cabia aos jogadores fazer delimitação de áreas, ajudar nas acomodações e quem sobrava em recursos, ajudava financeiramente. Não havia receita, sem muros, não se cobrava ingressos.
Sessenta anos depois, o aporte é de Excelsior Profissionalismo.
Campo murado, piso gramado, arquibancadas, iluminação noturna, torcidas organizadas devidamente paramentadas e o “chic no úrtimo”, uma emissora de TV local, fazendo a documentação do evento. Se antes os jogadores eram contribuintes, nos dias de hoje são regiamente remunerados pelos seus préstimos. Mudamos pra melhor, para uma cidade de médio porte, é expressivo o número de clubes praticando futebol profissional, aqui na cidade do frio. A visão que me arrodeia, é de que num futuro não tão distante, sairão daqui grandes jogadores pro cenário nacional. Vale registrar, entretanto, um número razoável de jogadores “Freelancer”, contratados para atuação em embates mais relevantes. Faz parte do jogo, devidamente aceitável.
O 4 de julho de 2026, amanheceu barulhento com o espocar de fogos nos céus dos Estados Unidos da América anunciando a data magna do povo americano. Lá, eles celebram a tão sonhada independência de uma nação. Aqui, o irromper de estouros nos céus, era o chamamento para as duas maiores torcidas de futebol, da terrinha nominada orgulhosamente de “capital do vinho” da Chapada Diamantina.
As agremiações a seguir, foram as contendoras em busca do título de campeã.
Azuup, Boleiros, Cachoeira, Caixa D’água
Campinense, Kisidane, Pedra Grande
Pelourinho, Rodoviária, e o Vila Nova.
Alguns meses de escaramuças e dois eleitos por direitos conquistados, chegaram ao topo, tendo apenas que vencer o último combate e arrematar a prenda:
O título de campeão morrense de futebol.
Azuup e Campinense, dividiram esta honra e eu historicamente estava lá.
Ruas no entorno apinhadas de automóveis,
Arquibancadas lotadas, torcidas devidamente paramentadas, gramado verdinho tipo pena de periquito, câmeras de TV em vigília permanente, drones curiosos e até o velho São Pedro estava na torcida, porque nesta tarde, a previsão de garoa constante mudou pra céu de azul rutilante.
No início do primeiro tempo, um zagueiro da Azuup foi expulso por falta e ser ele o último homem na defesa. Jogou assim com um atleta a menos, até que o iluminado Léo Baiano, numa sobra de bola na área adversária, botou a pelota pro fundo da rede. A vitória chegou finalmente pro time da cor do mar da Bahia e a onda azul, explodiu n’arquibancada. Azuup campeã.
Parabenizo a todos os clubes pela dedicação ao esporte, a tarefa não é fardo leve, precisa de muito esforço e doação.
Futebol também é cultura!

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.