A primeira vez que eu vi ainda em preto e branco, na tela do Cine União em Barra do Mendes, as imagens de uma metrópole, meus olhinhos brilharam de curiosidade. Eram elas, as imagens, um montão de transeuntes, carros e arranha-céus espigados como pés de eucaliptos, balançando como nuvens de algodão. Não havia azul nos ares, tudo plúmbeo como chumbo em profusão. Acho que a cidade em questão, era a cosmopolitana de sempre, a capital do mundo: cidade de Nova Iorque. O cinema foi a ponte dos horrores e louvores do mundo lá de fora. Foi ele que me trouxe uma das curiosidades intrigantes e apaixonantes que em todo o planeta só existiu na América do Norte: Uma das minhas dileções mundanas, o mundo másculo, perigoso e apaixonante dos cowboys, onde mocinhos e bandidos escreverem com pólvora e balas, a glorificada história Americana.
Com 12 pra 13 anos na cacunda, com a adolescência cutucando os meus calcanhares, a sede de saber do mundo já me acossava como predador rondando a preza. Se não sabia, de algum modo tinha que saber. Se o assunto carecia de demandas mais apuradas, tinha que estudar sobre os fatos, para entender.
Em setembro de 1787, foi outorgada a primeira e única constituição americana e os desejos de liberdade plena foram assegurados sem restrições. O Oeste, ainda quase desabitado, exigia segurança pessoal para quem nele quisesse habitar e não tardou que aparecesse alguém usando um cinturão com coldre, um revólver carregado para proteção pessoal, aliado ao direito constitucional de seguir a trilha que quisesse ou escolhesse pra viver. Antes mesmo do fim da guerra de sessecão, em 1865, desbravadores do Oeste já usavam revólver no coldre por vaidade ou defesa da pele. Arruaceiros, aventureiros e oportunistas, perambulavam por trilhas perigosas ou cidades, à cata de tirar de alguém, alguma coisa, ou mais coisas que pudesse. A guerra, igual a todas elas, trouxera uma crise social financeira das mais perversas. Fome e miséria assolaram todos os estados confederados que se rebelaram contra a união. Também os gentios de pele vermelha, donos das terras por direito de nascença, os índios, representavam perigo de sobrevivência, mas, nesta luta injusta de carabinas e canhões contra arco e flecha, evidentemente a derrota coube aos nativos daquele chão. Difícil se ver dividindo espaço das ruas de hoje, descendentes dos ameríndios, antigos habitantes dos estados de Nevada, Texas, Colorado, Novo México e Arizona, era lá que viviam e foi lá onde enterraram os seus ancestrais. O mundo apaixonante dos cowboys americanos, foi uma das minhas dileções mundanas e quando moleque, imaginava que algum dia iria andar por Dodge Citi, Abilene, Tombstone, Flagstaff, Amarillo, paramentado de janota nas suas empoeiradas diligências. Infelizmente trocaram as rodas de madeira por pneus emborrachados e as parelhas de cavalos e cocheiros, já não existem mais. O desvairio atemporal de ver de perto os jogadores Bat Masterson e Doc Holliday, o assaltante de Trem Jesse James e o jovem bandoleiro William Bonney, mais conhecido como Billy the Kid, mais o xerife durão Wyatt Earp, era uma utopia adocicada de uma mente sonhadora, dadivada pelos deuses da vida, afinal, sonhar era uma ocupação que não me custava nada. Por anos, ainda juvenil, cutucava os meus botões, de como seria viver no mundo empoeirado dos cavalos, vacas, ranchos e saloons, onde se podia tomar um whisky de um trago só, beliscar uma dançarina de “Can Can” e correr o risco de ser desafiado pra um duelo. Pena que esta época não existe mais, com certeza teria eliminado uns trinta pistoleiros. Brincadeirinhas a parte, eu só era bom mesmo, no badoque de borracha de caminhão. Naquele tempo, sem informações ecológicas de preservação de fauna e flora, todo garoto tinha um instrumento de morte pendurado no pescoço.
Eles vinham de longe. Atravessavam os fiordes dos mares da Noruega, enfrentavam ondas geladas do mar do Norte na Dinamarca e os perigos azulados das água do mar báltico na friorenta Suécia. A Escandinávia pariu homens de verdade. Eram os Vikings, que descia lá de cima das águas nórdicas, em busca de saques e conquistas na parte sul da Europa. Apesar de buscarem butins e pilhagens nas águas do mediterrâneo, não chegaram a incomodar o império romano, pois este já estava decadente quando os grandalhões de cabelos loiros iniciaram as suas incursões nas terras quentes do velho mundo. Antes deles, os germânicos Hunos, vândalos e visigodos, estes sim, foram os responsáveis pelo declínio do império romano. O magnífico roteiro cinematografado ” Átila, o rei dos hunos,” protagonizado pelo galã dos cabelos brancos, Jeff Chandler e na coadijuvância o não menos carismático ator americano Jack Palace, encarnaram numa película da Universal Internacional lançada no mercado mundial em 1954, documentando de forma impressionante, as investidas do povo bárbaro cuja intenção era se apossar de alguma coisa, nos domínios do império de Roma. Átila o huno, foi um calo nos dedões dos pés, dos imperadores donos do mundo. Apelidado de “O Flagelo de Deus” este perverso germânico por várias vezes mediu forças com legiões do império romano, contribuindo decididamente para o declínio do maior exército de conquistadores que o mundo conheceu. Da ponta da bota do mapa italiano, até os domínios de Cleópatra no Egito, centuriões romanos, fizeram valer a vontade dos Césares. Roma foi um dia, a capital do mundo civilizado, com honras, glórias e perversão.
Essa gente de cabelos dourados e olhos esmeraldinos ou da cor das pedrinhas de anil, tinha um encanto pessoal pela coragem e estampa corporal. Deixaram um rastro de conquistas em quase toda a parte sul do velho continente. Inglaterra, França, Espanha e mais um punhado de nações registraram seus feitos nos anais da história do mundo.
Também hordas asiáticas de bandoleiros e conquistadores, notadamente Turcos otomanos e mongóis, chegaram até a Europa em fogosos corcéis, trazendo como ameaça de morte, o fio da espada. O mais famoso deles, o mongol Gêngis Khan, atravessou a barreira do tempo de eras e carimbou o seu nome em telas de cinema, livros, e salas de bate papo mundo afora.
Eram homens valorosos, aventureiros por natureza, corajosos pela essência viril correndo nas veias, mereceram o lugar de admiração que ocupam na história da parte norte do mundo.
Também foi uma das minhas dileções mundanas, o jeito de passar pelas agruras e venturas da vida, do povo dos mares do Norte, conhecidos como “Vikings”. Aventureiros, sonhadores, corajosos, aparavam as arestas de qualquer natureza, no fio das espadas sempre trazidas no cós das calças. Exímios espadachins, escreveram as suas histórias com o punho garrado no cabo das cemitarras, porque desaforo pra casa, aquele povo não levava não. Hoje, se um professor reclamar com um aluno, vai passar por reciclagem, pra aprender boas maneiras. Civilidade demasiada, em cabeças infantis em formação de caráter, pode moldar delicadezas por demais acentuadas.
- Manoel l, rei de Portugal no período de 25 de outubro de 1495 a 13 de dezembro de 1521, devia gostar muito de um franguinho bem temperado. Apelidado de O venturoso, quando tomou ciência da cobrança de pedágio dos Turcos, na rota para as índias passando por Constantinopla, hoje “Istambul”, resolveu organizar uma esquadra composta de 13 embarcações, com destino às terras da pimenta do reino, cuminho, açafrão, páprica, ervas finas e outras “cositas más” que faziam o joelho de porco ficar mais gostoso. Coube a um fidalgo português, que não entendia bulhufas de navegação, o comando da expedição. Desde aquele tempo já existia favorecimentos a parentes, aderentes, apoiadores ou puxa-sacos, mesmo sendo incompetentes. Hoje, no Brasil de “Cabral” as coisas continuam como “d’antes no quartel de Abrantes”, somos o país da corrupção institucionalizada. O povo adora, faz parte do feijão e arroz que tá na mesa. E vergonhoso, mas é absolutamente verdadeiro.
Mas, a dileção mundana que me afaga, tão costumeira naquela época, era a capacidade de adaptação e contorno criativo das dificuldades por falta de tecnologia, dos navegadores do século XVI. Simplesmente admirável. Homens valorosos, de uma têmpera forjada em úteros de um tempo único. É como se houvesse uma predileção divina, para quem naquele tempo, escolhesse o mar para ganhar a vida. Espanhóis e portugueses, singraram os mares do mundo, em busca de riquezas e posses colonizadoras, com a destreza que nenhum outro povo no planeta teve a capacidade de fazê-lo. Espalharam costumes, tradições culturais, e o mais radical dos seus tesouros, o seu próprio idioma. Em todas as Américas e este registro estará lá, para todo o sempre.
Os navegadores do século XVI, usavam apenas a madeira para a construção dos seus barcos. Já usavam pregos de ferro, mas o lastreamento era a madeira pura e simples. Atingiram a perfeição no calafetar das ranhuras, que se davam ao luxo de enfrentar ondas gigantescas mar adentro, porque confiavam plenamente nos trabalhos dos seus estaleiros. Singraram todos os mares do o mundo, usando apenas a bússola e as estrelas como ponto de orientação. Hoje basta apenas apertar um botãozinho vermelho e o bicho faz o resto sozinho.
No ano 2000, o governo brasileiro fez uma encomenda de uma réplica das caravelas portuguesas, para celebrar os 500 anos do descobrimento. Seria a estrela da festa.
Seria, se o lastreamento estivesse correto, se o mastro tivesse o tamanho adequado, se o motor não estivesse avariado. Não conseguiu sair em mar aberto, seu destino era a histórica Porto Seguro. Deu chabu, ficou à deriva, simplesmente pifou. Os trabalhadores dos estaleiros portugueses e espanhóis, faziam isto a quinhentos anos passados, com um braço amarrado às costas. Como sempre, ninguém foi punido e a grana gasta mais uma vez foi pro ralo. Só pra lembrar, quem estava no leme da nação, era o sociólogo Fernando Henrique Cardoso.
A minha dileção por cowboys, começou na infância, no tempo dos filmes do Cine União em Barra do Mendes. Também as revistas em quadrinhos, me encantavam e me encantam até hoje. A vida aventuresca dos homens dos mares do Norte, os Vikings, me foi apresentada também pelo cinema, livros e revistas do gênero do universo das espadas.
Os encantos e desencantos das viagens marítimas dos navegadores, eu tive notícias, nos livros escolares. Estas paixões juvenis, nascem e permanecem em nós, até o final das nossas vidas. Tá na corrente sanguínea, não nos abandonam mais. É certo que existem outras predileções em nossas vidas, mas isto é assunto pra outras linhas de caderno. Contem as suas, também quero saber.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.