Temporariamente os Episódios do Junhão serão substituídos por textos de contos do autor Joswilton Lima. O primeiro livro que vai iniciar a jornada literária e será publicado em capítulos aos domingos é a estória fantasiosa com o título de “O Cigano Violeiro”.
As situações hilárias e as malandragens do Junhão vão continuar, porém em outro estilo. A ficção certamente irá agradar os leitores na medida que a narração do conto avançar para terminar com um final fantástico.
SINOPSE

O título do conto é fictício e narra uma estória fantasiosa, onde um sujeito bem-falante disfarçado de cigano visita fazendeiros ingênuos para vender belíssimos cavalos. Muito convincente e astucioso, consegue despertar neles a ganância para ficarem ávidos em comprar os animais.
O enredo é iniciado em uma zona rural do sertão baiano e relata a vida simples de quem mora na roça e também sobre as superstições existentes nas comunidades do interior. A estória narra o desespero dos compradores ao perceberem que foram ludibriados pelo esperto mercador de cavalos, que sumiu depois de receber todo o dinheiro que eles tinham guardado em casa.
O final do conto é surpreendente, quando descobrem que nada poderão fazer diante de forças ocultas para recuperar o dinheiro perdido. Estão amargurados porque caíram na lábia do hábil vendedor e ficou apenas a lição de que devem desconfiar de conversa-fiada que oferece grandes vantagens.
O autor
Capítulo 2
O BANHO DE CUIA
Na realidade a chamada represa é uma cavidade na terra, tipo uma enorme bacia, que junta a água que escoa de uma nascente existente na serra e é acumulada na parte mais baixa, onde seu Gastão fez uma barragem com pedras e barro. A água retida serve para o abastecimento da residência, além de tonéis em volta da casa que acumulam a água das chuvas que caem das calhas no período chuvoso. Muito engenhoso, seu Gastão aproveitou um declive logo após a represa e colocou uma bica feita com a metade de uma casca grossa do tronco de árvore, por onde a água escorre perene e serve para a família tomar banho em algumas ocasiões. É nesse banheiro improvisado que as crianças adoram se banhar com muita alegria. Contudo, ao chegarem no local, Néo, o irmão mais velho adverte os outros com severidade:
– Vocês tenham muito cuidado! Não devem deixar cair na água nenhum fio de cabelo com a raiz.
Joãozinho, irmão mais novo fica curioso e inquire:
– Por quê?!
Néo inventa uma estória que deixa os irmãos aterrorizados:
– Eu soube que se um fio de cabelo com a raiz cair dentro da água ele engrossa e vira cobra d’água. Vocês não querem chegar aqui e encontrar a bica cheia de cobrinhas chamando vocês de painho e mainha, não é?
As crianças ficam amedrontadas e rejeitam entrarem na água temendo serem pais e mães de cobras d’água e voltam correndo para casa. A partir desse dia as crianças passaram a ter medo de tomar banho temendo que fios de cabelo caiam na água. A partir de então, dona Jovelina fica pensando qual seria a causa deles estarem se esquivando para não tomarem banho. No final da tarde quando ela pensa em chama-los, os filhos fogem para se esconderem no mato e só voltam para casa quando escurece. Não muito tempo atrás, bastava dar o horário para que todos fizessem fila na frente do tonel que armazena água da chuva para que fossem lavados. E todos ficavam satisfeitos ao terem as cabeças bem lavadas com sabão massa e serem esfregados por uma bucha vegetal ensaboada para tirar toda a poeira acumulada no suor durante o dia.
Ao observar a mudança de atitude dos filhos ela fica matutando sobre o motivo deles estarem com medo de se banharem. Quando surge uma oportunidade ela pergunta:
– Eu quero saber o porquê de vocês fugirem para não tomarem banho, preferindo irem dormir sebosos.
Joselita fala timidamente:
– O Néo disse que se cair fios de cabelo na água durante o banho vai nascer um bocado de cobrinhas d’água para ficar chamando a gente de painho e mainha. E não queremos ser mãe ou pai de cobrinhas.
Ao ouvir tamanha asneira dona Jovelina sorri, mas logo depois fica sisuda e reclama com o filho mais velho:
– Você não deve ficar mentindo para fazer medo aos seus irmãos menores. Vou contar ao seu pai para ele dar uma surra em você!
Néo se defende inventando outra mentira:
– Quem me falou foi Nivaldo, filho da viúva Silvina. Ele disse que Rosemeire, sobrinha de dona Helena, tomou banho na lagoa da roça onde moram e os cabelos dela caíram na água. Logo as cobrinhas invadiram a casa procurando a mãe delas.
Nesse momento a mãe rebate:
– Aquele sujeito é muito mentiroso. Cobra só nasce se for filha de cobra e não de cabelo de gente. Portanto deixem de besteira e façam fila porque agora eu vou dar um banho bem dado em vocês.
E completa:
– De agora em diante eu não quero mais ver nenhum dorme-sujo aqui em casa.
Ao ouvirem a opinião da mãe, os filhos ficam confiantes e se organizam em fila para tomarem o banho de cuia. Eles estão contentes por se livrarem do pesado fardo de serem responsáveis pelo nascimento de cobrinhas. Com esse problema resolvido, a vida na fazenda Ouricana volta a transcorrer normalmente.
Nota: no próximo domingo a estória fantasiosa vai continuar com as surpresas começando.