Nascido em Salvador, Luiz Gama transformou a própria experiência de escravização em uma das mais importantes lutas pela liberdade no Brasil. O baiano usou estratégias jurídicas inovadoras, a atuação na imprensa e a mobilização pública para libertar centenas de pessoas escravizadas no século 19. Agora, o conjunto documental que registra sua atuação pode ser reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como Patrimônio da Humanidade.
De acordo com reportagem da jornalista Cristina Indio do Brasil, da Agência Brasil, a candidatura do acervo de Luiz Gama ao edital 2026-2027 do Programa Memória do Mundo foi formalizada em 26 de novembro de 2025 pelo Ministério das Relações Exteriores e pelo Arquivo Nacional. A decisão da Unesco sobre o reconhecimento internacional deverá ser anunciada no fim de 2027, durante a Conferência Geral do organismo.
Filho da africana livre Luísa Mahin, figura associada às revoltas negras na Bahia, Luiz Gama nasceu em Salvador em 1830 e foi vendido ilegalmente como escravizado ainda criança. Já adulto, conquistou a própria liberdade e passou a atuar em defesa de pessoas mantidas em cativeiro.
Uma das principais ferramentas usadas pelo abolicionista era a própria legislação brasileira. Gama recorria à Lei Feijó, de 1831, que proibia o tráfico transatlântico de escravizados, para argumentar que pessoas trazidas ao país após essa data estavam ilegalmente escravizadas e deveriam ser libertadas.
Além dos tribunais, ele utilizava jornais para denunciar abusos e pressionar autoridades. Como jornalista, ajudou a ampliar o debate público sobre a escravidão em uma época em que o tema enfrentava forte resistência política e econômica.
Outra característica de sua atuação era a defesa da abolição imediata, sem indenização aos proprietários de escravizados. A postura firme fez de Luiz Gama uma das vozes mais influentes do movimento abolicionista brasileiro.
500 pessoas libertas
Pesquisadores estimam que sua atuação tenha contribuído para a libertação de mais de 500 pessoas escravizadas. Entre os casos mais emblemáticos está a chamada “Questão Netto”, considerada uma das maiores ações coletivas de libertação das Américas.
Segundo a Agência Brasil, a candidatura do acervo relacionado à trajetória de Luiz Gama ao reconhecimento da Unesco busca preservar e difundir internacionalmente o legado do baiano, cuja luta segue inspirando debates sobre justiça racial e direitos humanos.
Batizada de “Presença Negra no Arquivo: Luiz Gama, articulador da liberdade (1830-1882)”, a candidatura apresentada à Unesco reúne documentos que registram a trajetória e a atuação do abolicionista baiano. O acervo é mantido pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo (Apesp), responsável por sua organização e preservação, e já recebeu reconhecimento do Programa Memória do Mundo para a América Latina e o Caribe (MoWLAC), iniciativa vinculada à Unesco.
Em entrevista à Agência Brasil, a pesquisadora e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Lígia Fonseca Ferreira, destacou que Luiz Gama ocupa um lugar singular entre os abolicionistas brasileiros por ter vivenciado a escravização na própria pele. Segundo ela, essa experiência marcou profundamente sua atuação em defesa da liberdade.
Para a pesquisadora, os escritos e a militância de Gama revelam um olhar atento às trajetórias individuais das pessoas escravizadas. “Tudo que escreveu e a maneira como, depois, se voltou para a libertação de indivíduos tem um olhar particular, quase de caso a caso, entendendo aqueles com quem tratou”, afirmou.
Fonte: *Correio/jornalcorreiodosertao.com.br