Carlos Karoá escreve: ‘OS SENTIMENTOS’

 

O dia mal amanhecera e Togah Din, já estava na porta de casa, perscrutando os ares, pronto para mais uma incursão de caça, pelas matas virgens da costa oeste de Angola. Não tinha mais que 17 anos. Paramentado com uma capanga de couro, com pão de mandioca e um pouco de mel, uma bolsa de água, uma faca de ferro, também arco e flechas de madeira e pontas de pedra, ele maquinalmente conferiu os apetrechos e ato seguinte, puxou a porta de toras de madeira amarradas com cipó de fibras e saiu. Seus pais ainda dormiam.

Saiu pelo terreiro a ouvir o chilrear de pássaros madrugadores e sentindo no peito a brisa fresca da manhã. Raios dourados de sol aqueciam a relva fresca sob os seus pés, nus de qualquer calçado. Togah Din era pobre, mas era feliz. Seus pensamentos nesta hora estavam encutidos no corpo ainda proibido da jovem Tirzah, por quem estava perdidamente apaixonado. Alimentava a ilusão de um dia se casar com a jovem aldeã de ancas maliciosas.

Caminhava apressado, seu destino era um riacho de águas perenes, distante alguns km de casa, onde vira dias atrás, um grupo de empalas saciando a sede. Abater uma delas iria torná-lo um guerreiro aos olhos da menina e teriam alimento em casa por um bom período de tempo.

Envolto em pensamentos e atenção do caminho, nem percebeu o sibilar de um chicote de couro que se enroscou em seu pescoço. Quem segurava o odioso objeto, deu um violento puxão para trás e o derrubou sobre folhas e galhos do chão. Togah Din quis reagir, mas não pode. Uma bota de couro de boi apoiou sobre o seu peito e logo logo foi dominado. Suas mãos foram amarradas e o jovem negro angolano se tornou cativo. Fora capturado por escravagistas portugueses. Iria terminar seus dias de uma vida miserável, numa fazenda em qualquer lugar do Brasil. Não seria o trabalho que iria mata-lo de tristeza ou definhar a robustez do seu corpo juvenil. O que iria mata-lo mesmo, era a saudade que sentiria de Tirzah, o amor da sua vida e de seus pais que com certeza, não veria nunca mais.

A escravidão no Brasil, último país do mundo a promover a abolição, durou mais de 300 anos.

Sinceramente e por inteiro indignado, eu me pergunto onde estava Deus, o altíssimo, o todo poderoso, que permitiu com profunda abstração, tamanha iguinominia.

Nós seres humanos, somos feitos de carne e osso. Esta afirmação está nos autos biológicos desde o começo da vida. Eu acrescento uma outra particularidade: Também somos feitos de sentimentos. Só assim, com esta trilogia maravilhosa, o nosso corpo está verdadeiramente e deliciosamente completo. Carne, ossos e sentimentos.

Os sentimentos, estes bichinhos sem teto que adoram morar no coração alheio, resistem bravamente a infortúnios, mazelas, fome, desilusões, guerras e até a tecnologias modernas que trazem novidades cada vez mais graciosas O celular, por exemplo, traz tantas informações no seu quadradinho, mas os namorados, sentados juntinhos um do outro, preferem as consultas ao Google do que os beijinhos dos tempos das cartinhas e bilhetinhos de amor. Mas eles, os sentimentos, resistem pacientemente, a espera que alguém lhes venha dar a mão, ou quem sabe até os lábios, para um doce e caloroso beijo.

As glândulas, estas usinas fantásticas que distribuem vida pelos caminhos azuis do corpo, conhecem de pertinho todas as castas destas ilusões que nos trazem dor, alegria, felicidade e vontade de viver para todo o sempre.

As poderosas torres hormonais despejam riachos vermelhos pelas vias celestes do torso, e por Vicinais delicadas, levando hormônios do crescimento e até aqueles que nos enchem de desejos. Sem conhecimentos médicos, nem sei o que mais estes turbilhões da cor do carmim, entregam em seus endereços. Sei que são vitais. Sei que permeiam lugares que precisam de vitalidade enquanto a vida pulsar, enquanto o coração bater.

Pois são as glândulas, a Seara matizada onde os nossos sentimentos de aninham. E curiosamente, eles são muitos e bem heterogêneos ou desiguais.

Aportados em casinhas de algodão, daquelas que varrem o mundo a procura de adoção, os sentimentos só esperam de nós, um piscar de olhos, um aceno de mãos, para ocupar o seu lugarzinho em nossos corações. Se o alicerce é a amizade sincera, tem paredes fortes para um abrigo seguro. Pode ver lá fora sossobrar o vento da desventura, mas se manterá de pé. A égide da amizade é o porto colossal do bem querer, uma nave grandiosa de afeição, um comadrio onde a cordialmente é uma obrigação. Acho que a amizade é a casinha de algodão que mais existe neste mundo.

O carinho é o mais fofo dos sentimentos.

Sua casinha tem paredes coloridas e o seu alicerce são os dedos das mãos. Um toque, um gesto, um afago deste sentimento de casinha multicor, traz paz de espírito, traz o sono nas horas de angústia, traz esperança para quem em águas turvas, deixou em expiro, o baú de sonhos e também desilusões. O carinho é a casinha de algodão mais desejada deste mundo.

Nada mais importa quando a casinha de algodão dourada se instala no coração dele, ou no coração dela. Este vendaval carmim de faz de conta, porém, contudo e, todavia real do dedão do pé ao cocuruto da cabeça, é a quimera da imortalidade. Seu nome: O amor. Se verdadeiro, não há força neste planeta capaz de detê-lo. Desdenha graciosamente de quem pensa em abatê-lo, porque sabe que as colunas diamantadas mal podem ser arranhadas. Traz em sua casinha de ouro, a companhia nobelesca da renúncia, do bem querer e da mansidão da alma. A consciência de si mesmo, do amor, é a ausência de temeridade. Quando fincado está, nem o ciúme, seu pior inimigo desde o começo dos tempos, pode lacerar seus esteios, areados da mais dura penedia. O amor é a música da humanidade no planeta, o amor é a dança da humanidade no planeta, o amor é o canto da humanidade no planeta Terra. Numa simbiose divina, o amor foi o sentimento escolhido para estar em tudo que pode tocar a mão humana, em tudo que pode ver a íris de quem tem vida, na doçura de quem pode dar ou receber um beijo. Ele é simplesmente único.

A saudade tem cor lilás. E este desvario está em mim, sem que eu mesmo saiba por quê. Sei que não tem a alvura da paz, porque corações saudosos estão sempre em mãos da agonia. Não têm o negrume da solidão porque a saudade só existe a dois. Talvez tenha os graciosos olhos verdes da esperança, porque quem está de mãos dadas com a desilusão, a cada amanhecer espera não estar sozinho.

Sentimos saudade de tudo. De um lugar, da infância, de alguém, dos tempos vividos com os nossos pais, dos mestres, de coisas pequenas, mas que faziam avivar os nossos corações amorosos. As vezes, até faz bem sentir saudades. Naturalmente sem o aprazamento de outros sentimentos negativos, como a inveja, a amargura e também o ódio, que apesar da repulsa humana, é pragmático e pode milagrosamente construir. Apesar de tantas coisas vividas, sinto que tenho ainda, muitas coisas pra saber. Quem sabe num tempo do amanhã, conhecedor dos mistérios da vida, saberei ver o brilho eterno dos meus pensamentos, porque um dia a minha mente de garoto, teve sonhos, ilusões e sonhos de grandeza. Aliás, não me parecia tolice sonhar grandiosidades, porque naquela época eu desconhecia a morte e acreditava piamente que iria viver para todo o sempre.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

 

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