Quando me abraçar o negrume da escuridão, aquela que sistematicamente faz a gente deixar de existir, com certeza eu vou morrer de tristeza por não ter nada mais pra fazer. Só em pensar, que quase sempre em todas as manhãs me chegava e agora não vai mais chegar, uma caneca “pelando ” de café com leite, com a fumacinha revoluteando numa “torinha” de cuscuz com ovo, me vem uma tristeza de dá dó. Também vou lamentar o sumiço repentino, daqueles instantes de meados de tarde ou manhãs, dedicados aos caminhos da música, que por associação, estarão em recesso permanente. Não se vai mais, tentar compor alguma coisa, cuja harmonia os ouvintes não iriam revirar os olhos ou fizesse um torcicolo de boca, reprovando a concepção. Nem de longe, tocar uma canção pela enésima vez, só porque ela ficou grudada no juízo ou aprender acordes de uma modinha nova, ouvida por acaso, na Seara das redes sociais. Também neste pacote de ausências eternas, estará a ansiedade vivida nos prenúncios esportivos, quando o meu time de coração, ia a pelejar uma prenda valiosa. Esta flagelação de antes, esfumar-se-á, por naturalidade, no mundo angustiante daquilo que não existe mais. Aquelas fitas de cinema, com o mocinho beijando a mocinha e aparecendo as duas palavrinhas “The End.” também vão subir na poeira, meu Deus que sofrimento. Um detalhe triste e verdadeiro, é aquilo a que chamamos de “Hobby” que por eliminação, também vai sumir do “mapa”. Sem vida, é evidente que não haverá reclames ou desejos e tudo guardadinho carinhosamente em nossas prateleiras, passará a quem o direito permitir, ser o dono de tudo. É quase certo que o “acervo” recebido, vai desaparecer, é difícil haver coincidências de gosto pessoal, mesmo com o sangue das veias, tendo o mesmo “fator” RH.
As pessoas tipo eu, cuja consciência dispensa a necessidade de amealhar fortunas, lamentarão ir embora deste planeta de cor azul, apenas pela perda dos chamados “conceitos abstratos”.
A beleza de cada amanhecer
O parecer lôbrigo e triste do entardecer
O abraço sincero dos amigos
O beijo desejado e o prazer aninhado nos nossos sentidos, onde a emoção de sentimentos e o amor na sua plenitude, dispensa comparação.
Para as mulheres, o homem provedor que lhes dar o colo, para os homens a mulher amada que lhes dar amor.
O nosso corpo, é um poço infinito de prazeres, ungido milagrosamente desde que ao nascer, recebe aquelas palmadinhas na bunda, abre o berreiro e mostra que tá vivinho da silva. São os votos de boas vindas de médicos parturientes, a este mundão abençoado, que ninguém quer deixar pra trás e esta unção está nos cinco sentidos que trazemos galhardamente na “algibeira”.
VISÃO
A visão do rosto materno pela primeira vez, é um transe emocional de profunda exaltação para o resto da vida, ficará nos confins da mente, enquanto o coração estiver batendo.
PALADAR
Neste transe, estará o sabor da primeira amamentação e a cada estalar de língua, o gosto será revivido.
OLFATO
O olor do corpo da mamãe, também será distinto entre todas as mães do mundo e este fato absurdamente real, não será explicado, a natureza as vezes, guarda os seus segredos.
TATO
Na ponta dos dedos, o tato manterá a marca indelével da pele da mãe protetora, a quem o feto lhes confiará a própria vida.
AUDIÇÃO
Ao ouvir uma canção de ninar, um acalanto para o sono chegar, o reconhecimento será imediato e nenhum destes mistérios, terá um preço em valores conhecidos, pois somente nestas concepções abstratas, Deus estará presente.
Mensurar valores, é o princípio de avaliação de troca, de compra e venda que dita normas
desde o início da civilização e não há indícios de mudanças, pelo menos nos próximos milênios. Mensurar fortunas, porém, não chega a ser tão difícil, pois é no topo da “pira recheada” onde se escondem os nababos. Numa analogia simples, entendem-se evidentemente, que é na base desta pirâmide, onde se alinham os menos favorecidos.
E é aí, onde está o imbróglio do temor da morte, nesta diferença de amontoados de contos de réis. Quem é dono de vinténs, guardados embaixo do colchão, não traz consigo a angústia da “supressão” a lhes cutucar os calcanhares, o conformismo da perda, já lhes acompanha desde os primórdios da vida. Contudo, quem dorme em “colchas de cetim” bordadas a fios de ouro, quem de tantos serviçais, desconhece o quanto é nobre construir, quem não sabe o que fazer com as moedas que lhes chega a cada segundo, terá a lhes consumir, agonia que não o abandonará noite e dia, pois é difícil aceitar a verdade do livro de Gênesis: Um dia, ir embora deste mundo. Enquanto “João Ninguém” dorme o sono dos humildes, o Chefe do “Califado” amanhece de olhos turvos, angustiado sem saber, quem vai ficar com o seu “Harém”.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.