Carlos Karoá escreve: ‘APRENDENDO BRINCANDO’

Dia desses, um amigo e eu, estávamos a discutir “touperices” ditadas por aí. Bom lembrar, que estes exemplos de ausência de conhecimento não nos cabia a carapuça, eram coisas bizarras, com a assinatura da juventude de agora.  Não sabem quem foi o primeiro Imperador do Brasil, qual foi a primeira capital brasileira e a primeira pessoa do plural pra eles, é um segredo de estado. A garotada do final dos anos 50, início dos anos 60, quando consumia as horas do seu tempo em recreação, o fazia aprimorando habilidades, mesmo sem imaginar que esta prática, os estava empurrando para adquirir aptidões, pro resto das suas vidas. É interessante, sem o “pejo” da discriminação, comparar a geração de “ontem” com a geração de agora.  A molecada nascida na metade do século passado, buscava ansiosamente o conhecimento e aquela turma de hoje, que chamamos ” geração teen”, se consola com as facilidades que a tecnologia lhes concede. Quando um ajuntamento de meninos, se espremia pelas calçadas, para contar os “causos da carochinha”, aprimorava a sua capacidade de conceber ilusões. Os caminhos tortuosos do começo da fábula e o seu desfecho coroado de moralidade, impingia comportamento ético em seus conceitos existenciais. Era um alívio ver o bem vencer o mal, a generosidade sobrepondo à maldade, o amor enfim, como salvação.

A diversão, quase sempre implicava esforço físico e a gastança sistemática de neurônios. A prática do jogo da “giribita”, nos capacitava a dimensionar altura, rapidez e senso de direção. Também quando a brincadeira era a “amarelinha” ou “pular macaco”, o aprimoramento era do equilíbrio físico e a habilidade do uso das mãos em calcular distâncias.

O jogo “ordem, seu lugar”, era uma aula intensiva de ajuste da memória com ordenamento mental e segurança manual. Memorização na cabeça e segurança nas mãos.

Correr pelas ruas e becos, armados com pedaços de madeira imitando um revólver e disparado tiros pela boca, éramos os mocinhos capturado bandidos e semeando justiça. No mínimo, servia como exercício físico fortalecendo as pernas e ensinando que o crime não compensava.

Aquelas bolotinhas coloridas, apelidadas de “bolas de gude” eram as rainhas do mundo infantil. Percorrer o caminho dos “topes”, fortalecendo mãos e dedos, aprimorando pontaria, aguçando o sentido de direção e distância, era a via natural para ser um titular campeão de gude. Não era fácil ostentar essa honraria, tinha muita gente boa e modéstia à parte, eu estava no meio deles.

Disputar “cabo de guerra” era uma afirmação de força e virilidade, a celebração da vitória, tinha a pompa peculiar dos vencedores:  Para nós tudo, para eles nada. Era de forma suscita, um alerta de que na vida, sem esforço pessoal, as conquistas não são amadurecidas.

Um tantão de vezes, esfolei o dedão do pé em correrias combativas da recreação “boca de forno”. O desembesto pelas ruas no cumprimento de obrigações ditadas pelo chefe, era a marca “rubra” da diversão.  Não tinha cansaço, podia durar a noite toda. Também, quando se escondia um anelzinho nas mãos da menina mais bonita, já se percebia nos olhares indiscretos,

Insinuações matreiras, amornadas no joguinho do “casamento oculto”. Sorrateiramente, a vontade de namorar ele ou ela aflorava na escolha dos parceiros, meninos e meninas adolescentes, eram já naquele tempo, por demais perigosos.

“Pular corda” era e é, de uma beleza plástica única, moradora do cantinho das coisas belas. Deixava o cérebro permanentemente avivado, pernas fortificadas e agilidade nos pés, num exercício de precisão matemática, mostrando uma visão saltitante, de eterna mocidade.

O leque das brincadeiras do nosso tempo, era imenso e fantasioso:

“Empinar arraia” ” Bodin qué mé” Sinuca de bolas de gude, “fincar pé” “badogar”, banhos de rio e tantas outras coisas que o tempo se fez presente e levou embora.

Quem disser que não sente saudades, daquele tempo que a vida florescia a cada amanhecer, certamente tá faltando com a verdade.

Em circunstâncias beirando o burlesco, pode-se afirmar que até a eternidade tem prazo de validade. Nominamos os fatos do nosso dia a dia, de ocasionais, pontuais, cíclicos ou perenes quando jeito mais, não se pode dar. Evidente que a juventude de hoje, não iria cultuar costumes e tradições infantis e adolescentes de eras passadas, pois até comportamento rotineiro, igual a tudo que tem vida, sofre evoluções. Um garoto de hoje, passeia pelo mundo da informática com tamanha desenvoltura, que chega a assustar a nós velhinhos que bem lá atrás, só conhecia o telefone de cordão e latinhas. Época por época, porém, posso afirmar sem nenhum titubeio, a nossa era infinitamente, bem mais intensa.

 

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

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