Carlos Karoá escreve: ‘OS BARQUINHOS DE ILUSÕES.’

Lembranças dos meus tempos de Guri, em Barra do Mendes, a cidade dos meus amores

 

A tosca iluminação de um candeeiro a querosene deixava o nosso quarto amarelado como folhas de são João. Numa cama na parede em frente, dormia a minha irmã Carminha, que naquela hora nem dormindo estava.

 

Enrolada em cobertores, mantinha os olhinhos abertos, pouco assustada, pois a zuada da chuva no telhado era prenúncio de tempestade. Vez em quando, um corisco centelhava nas paredes sua luz esbranquiçada, como linguetas de prata e o ribombar do trovão fazia a gente arregalar mais ainda os olhinhos de gatinhos amedrontados.

 

 

Não sabia precisar a hora da noite, mas lembrava de que a janta ficara para trás há muito tempo. Meu pai estava empoleirado numa escada lá na sala, tentando tirar uma goteira que insistia em molhar a mesa. Com goteira ele não dormia. Nem eu.

 

Quando ouvia um pingado, ficava esperando o outro até o dia amanhecer.

E o dia amanheceu. Sem chuva, mas ainda plúmbeo, com pesadas nuvens cinzentas ainda cobrindo a serra, que nos protegia dos ventos que vinham lá do leste do mundo.

 

Lá longe, nas azuis serras do Milagre, uma barra já se formava avisando que mais tarde o sol iria brilhar forte, nas ruas do nosso chão.  Era mês de novembro, início das trovoadas, das águas que enchiam o açude, que regavam as sementes, das águas que fecundavam os grãos.

 

Este preâmbulo, quiçá se pareça com um início de um conto interiorano, mas na verdade é apenas purgações de lembranças da minha infância, na terra dos meus amores. Escrevendo tais reminiscências, como sempre as lágrimas são inevitáveis.

 

 

Sempre no início das trovoadas, as águas de chuva que caiam na parte de cima da cidade, desciam em forma de fortes enxurradas. E quando as águas começavam a descer ladeira abaixo, cada menino fazia seu barquinho de papel com uma folha de caderno.

 

Jogava os bichinhos nas marolas da enxurrada e os acompanhavam até que navegando estivessem. Vez em quando o barquinho encalhava numa pedra, num raminho e o jeito era toca-lo de novo com os dedos ou um garrancho qualquer.

 

 

Nesta manhã de agora e não daquele tempo, me vejo novamente a jogar o meu barquinho de papel nas águas revoltas das velhas enxurradas.

 

Levava em seu bojo os meus sonhos, as minhas ilusões, os meus desejos de garoto, perdido em devaneios ou quimeras tão grandiosas, que muitos não iriam se tornar realidade na minha vida do amanhã, num tempo que se chamava futuro, verbo que por inocência, ainda não sabia conjugar.

 

E assim numa fábula da tecnologia, a minha imaginação me leva em imagem holográfica, para a porta da casa do velho Otacílio leite, e começo descer a Rua Juracy, revendo em fantásticos hologramas tudo que vivi em minha infância.

 

 

Posso ver as meninas Luzia e a irmã Lilinha brincando em frente de casa, lindas e puras como o sol das manhãs que nos iluminava agora.

 

Também o velho Sinésio e seu velho caminhão GMC, alquebrado, despinturado, mas que lhes dava o sustento de cada dia, honestamente, carregando adobos, telhas ou o que aparecesse. Sem bons freios, o velho caminhão se acostumou a parar, esbarrando em cepos de madeira que o velho Sinésio lhes jogava nas rodas.

 

 

Do outro lado da rua tem um cemitério de gente rica. Rica talvez em recursos de vinténs, mas de espírito vergonhosamente pobre, porque a matéria em descanso na terra merece respeito, mas de nada mais servirá. Não gosto de cemitérios. O outro, lá da parte de cima da rua, tinha roubado de mim, havia bem pouco tempo, o meu bem mais precioso: a minha mãe. Logo logo desvio o meu olhar das suas criptas odiosas.

 

Vizinho deste lugar é a casa das irmãs Alda e Alíria, elas brincam com um velocípede preto, com uma enorme roda dianteira e rodinhas traseiras pequenas pintadas de amarelo. Daria tudo pra brincar um pouquinho com aquele velocípede, mas elas não falam comigo. Pertencíamos a mundos diferentes.

 

E o meu barquinho, continua a descer a rua na enxurrada e por onde passa, as visões daquele tempo não me abandonam. Na porta de seu Zupero, Nice e a vizinha Carminha, brincam jogando jeribita, e do outro lado da rua, na casa de dona Dulce, algumas meninas jogam uma bola na parede na brincadeira de “ordem, seu lugar, sem rir, sem falar, de uma mão para a outra…” Diversão salutar que os celulares e tablets apagaram para sempre das memórias infantis.

 

 

Mais abaixo na rua, está a casa de Vera de seu Vilson, a mais bela garotinha, que na sua adolescência iria deixar relevantes e calientes paixões juvenis. Era ainda um garoto, mas sabia o que mereceria citação histórica na nossa cidade.

 

O preciosismo do músico Almerindo Guedes, que apesar da nossa capital da amizade ser tão provinciana, granjeou fama e respeito nos meios musicistas da região. Exímio saxofonista, foram merecidos os elogios recebidos.

 

Ainda nesta visão em holograma, o barquinho corre célere já em frente à casa de Antenor Sodré, o meu barrista preferido. Também em frente à casa de seu Josué Durães onde todas as noites eu ia ouvir as novelas do Anjo e de Jerônimo o herói do sertão. Tempo de criatividade merecedora de crivo, do grande novelista Moisés Weltman.

 

 

Nesta época de incertezas, somente por inexperiência, nós garotos ainda, não sabíamos o que queríamos ou mesmo o que esperar do futuro das nossas vidas. Não pensávamos nesta verdade. Tínhamos mais medo de uma frase comumente gritada nas horas filosóficas que era “dois mil não chegará” do que da própria morte.

 

A morte para nós meninotes, era uma coisa misteriosa que só mostrava a cara, somente quando alguém passava por nós num caixão de madeira rumo ao cemitério. Mas logo logo esquecíamos e a vida tomava o seu rumo de antes.

 

 

Os nossos barquinhos, talvez por instinto de sobrevivência, eram os nossos mensageiros de autoafirmação. Ainda meninos, já ensaiávamos uma corrida para algum lugar, onde pudéssemos merecer aplausos por ser um vencedor.

 

Um barquinho de folha de caderno, numa marola de água de chuva, carregava ilusões de grandiosidade, os sonhos de homens poderosos, nas nossas mentes ainda limitadas pela idade, porque só o tempo de vida nos traz experiências para se evitar os erros que poderão trazer dor e arrependimento pro resto das nossas vidas.

 

Os barquinhos de papel, frágeis e simplórios, levavam em seu bojo também, um imenso simbolismo de vitória. Mesmo condenados a ser tragados para as profundezas do açude, a essência enquanto navegavam era de um poderoso transatlântico.

 

Levados pela correnteza ou ajudados quando encalhavam, quando chegavam ao final da barroca lá perto da casa de seu Zuza, desapareciam para sempre das nossas vistas, como folhas levadas pelo vento e não voltavam jamais.

 

Levavam de forma segredada, as nossas mensagens para o mundo, que éramos garotos, mas um dia estaríamos brilhando nas passarelas que a vida traz. O estrelato era apenas uma questão de tempo.

 

Não posso nominar o grupo de barqueiros, porque quase todos os meninos da rua de baixo, traziam seus barquinhos para esta competição quase sempre sem vencedores. Éramos ingênuos, mas com absoluta certeza, cheios de esperança e fé.

 

Daqueles amiguinhos ainda crianças, muitos nem sei mais por onde andam. Alguns a vida lhes deixou e outros conheço os seus destinos que a vida lhes reservou, com as suas notícias existenciais escancaradas nas atualíssimas redes sociais.

 

Com toda a certeza, dediquei o meu amor fraterno aos meus amiguinhos, àqueles que estavam sempre comigo nas nossas brincadeiras do dia a dia. Com eles, era pisar no vento como se fosse pedra, nadar no ar como se fosse o mar, porque o amor verdadeiro não tem começo nem fim, é eterno tanto quanto os deuses que criaram a terra, ou este sopro de vida que nos permite desfrutar, das maravilhas do universo.

 

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

Compartilhe

SIGA-NOS

PUBLICIDADE

MORRO DO CHAPÉU