Carlos Karoá escreve: ‘OS BARES DA BARRA’

Um dos dias mais tristes da minha infância, foi quando perdi a substancial quantia de dois mil e oitocentos contos.

 

Triste e vergonhosa porque esta quantia foi perdida num jogo. Num crucial jogo de três topes na bola de gude.

 

Perdi por falta de competência, o que me fez chorar de raiva, decepção e arrependimento, isto escondido dos outros garotos pra não passar mais vergonha.

 

Do meu pai neste episódio eu não tinha nenhum medo, ele não se metia com o meu dinheirinho de notas de cigarro. O universo financeiro das notas de cigarros era perfeito. Primeiro porque não tinha inflação. Segundo pela credibilidade e garantia da moeda corrente. Terceiro porque o bicho homem não se envolvia com nosso dinheiro.

 

Uma nota de duzentos contos dava pra comprar um pirulito usado pela metade, uma banda de picolé de côco, ou uma ou duas bolas de gude ainda lisinhas.

 

Dependendo da demanda do mercado, até a metade de um copo de doce de leite do Bar de Bia, dava pra se comprar.

 

A tabela de valores era a seguinte:

Cigarro Astoria………100

Continental sem filtro.   200

Hollywood ………….      500

Minister …………..      500

O papel laminado.       1.000.

 

E aí a gente corria os bares da cidade à cata de carteiras de cigarros vazias, geralmente descartadas nas sarjetas das ruas, ou debaixo de tamboretes ou mesas de casas que vendiam bebidas.

 

Na rua da palha o processo de captação tinha que ser rápido. Não éramos bem-vindos lá pra aquelas bandas. Entrava apressado no salão, avaliava a cara de quem tava presente e esquadrinhava o local em segundos, com aquela visão que o Super Homem tem nos filmes e faz um ti ti ti ti ti que a gente adora.

 

Corria pegava a carteira que porventura tivesse e saía disparado do lugar. A rua da palha era um lugar de noitadas, bebidas e fumantes, por isso a gente ia lá. Eu entrava correndo no bar de seu Virgílio, no bar de seu Miguel Coki, e no bar que hoje pertence a Milton Caramba. Bem em frente a este bar, tinha a tenda de cortar cabelo de seu Antônio pai de Cida.

 

Nas minhas orações noturnas, sempre pedia pro cabelo demorar a crescer. Sabia do ritual de depenação, Tim Tim por Tim Tim. Chegava na tenda com um recado de meu pai. Eu dizia: seu Antônio, pai disse que é pro senhor cortar meu cabelo. Ele me olhava com aqueles olhos mansos e pedia pra esperar.

 

Na minha vez, colocava uma tábua nos braços da cadeira pra nivelar a altura e começava seu trabalho. Enquanto ele tava pipinando com tesoura e pente a coisa tava indo bem. Depois ele pegava o diabo de uma maquininha prateada, que era comumente apelidada de máquina zero. Ia na porta, batia com ela nas mãos, dava umas duas assopradas e voltava com um imenso sorriso nos lábios.

 

Sei que no juízo dele o pensamento era: Agora você vai me pagar a fava que o boi comeu. E começava o nhac nhac pela nuca nesta hora já toda rupiadinha. Alguns minutos depois e a gente sentia a primeira mastigada da danada. Alguns tufos de cabelo ficavam entranhados nas engrenagens da máquina, a gente dava um pulo e seu Antônio replicava: calma foi só uma dentadinha de nada.

 

Seu Antônio tinha a paciência na proporção exata do avechamento de dona Rita. Reverencio respeitosamente os pais da minha querida Cida.

 

Não frequentávamos os bares e bodegas da rua de cima. Território proibido. Cada taberna, contudo, tinha a sua gotinha de sedução. O Bar de Bia era a simplicidade e a simpatia da proprietária.

 

Também tinham os copinhos de doce de leite que ficavam numa bandeja em cima do balcão. Todos com papel no copo para evitar moscas. Vez em quando, nos sábados, uma festinha de radiola Philips para diversão e aumentativo de números. Ficava ali pela porta vendo os casais dançarem. Sabia que um dia chegaria a minha vez.

 

O bar de seu Bidão era uma parada obrigatória, principalmente a noite. Duas mesas de sinuca, um bilhar e a zuadinha das bolas de marfim. Todas coloridas zigzagueando num campo verde cana de um feltro extremamente macio.

 

A incidência das luzes do salão, era um chamariz irresistível. Meninos, besouros e mariposas gostam da claridade da luz. Nós garotos ficávamos encostados nas portas. Alguns se arriscavam a sentar nos enormes bancos juntos das paredes, mas sempre de olho na chegada de seu Edgar Preto ou Guedes. Bastava eles entrarem para a gente sair correndo.

 

O bar de seu Bidão era um ambiente de jogo e era natural a imposição de limites para nós garotos e foi este ambiente que se tornou o habitat preferido de um rapaz por nome Edmundo, mas todos nós o chamávamos de Torrado. Andava sempre limpinho, arrumadinho, mas sem luxo, não tinha dinheiro pra isto.

 

Desde cedo inclinou-se para o universo das cartas de baralho, e tacos de sinuca. Galgou o status de jogador profissional e depois disso, sempre vinham jogadores de outras praças pra enfrenta-lo.

 

Lembro de um senhor gordo, chamado Gusmão, sisudo, usava alpercatas em vez de sapatos. Parecia um gangster. Cabelos bem penteados, jogavam o dia todo com o dinheiro casado dentro das caçapas.

 

As vezes chegava a noite e eles estavam lá, arrodeando a mesa, cansados, parecendo autômatos. Vida de jogador não era fácil como se pensava.

 

O bar Ponto Certo de meu amigo Tenor era um dos points da cidade. Uma notícia só teria credibilidade se passasse pelo crivo dos fofoqueiros de plantão do bar Ponto Certo. Era uma espécie de repórter Esso tupiniquim.

 

Tenor era um homem de vanguarda. Autodidata em educação, praticidade e jeito, vislumbrava novidades para deixar seu barzinho mais atraente. Acompanhava o calendário festivo com a presteza de um relógio. Natal tocava músicas natalinas, São João enfeitavam o bar com bandeirolas, no carnaval enfeitavam o salão com máscaras carnavalescas e nos tempos sem apelos festivos, fazia nos sábados umas festinhas dançantes pra gastar os discos e uma radiola Philips que a gente adorava ouvir.

 

Nós, garotos, fizemos o que devíamos fazer A geração da minha contemporaneidade foi fantástica. Não houve desvios, não nos corrompemos, até um sistema fiduciário sem o lastro do ouro como garantia, mas com a honra juvenil em provação, tivemos a capacidade de criar.

 

Não sei qual o garoto teve a iniciativa para criar o dinheiro de notas de cigarros, mas ele existiu o foi criativo e fabuloso enquanto durou. Reverencio os donos de bares, bodegas e vendas da minha querida Barrinha.

 

Mercantilistas do amor ao chão onde viviam. Aplausos de saudade pra os irmãos Zuza e Chiquinho Alves, seu Filadelfo de dona Telina, a família Figueiredo, a família Campos, Valtinho de dona Amélia e os baristas da rua da palha.

Quedo-me, contudo, diante de dois homens extraordinários. Antenor Sodré e João Nunes Franca. Um amor filial me leva na direção destes dois gigantes da servidão, baluartes da coletividade barramendense. Não os esqueço. O que foi gravado na memória da alma, coração e sangue, não se vai com as desilusões vividas.

Torna-se indeléveis e desafiam o tempo, que é o senhor absoluto da existência humana.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

 

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