Os ataques racistas sofridos por Vinícius Júnior nas arenas europeias não são fatos isolados, nem “exageros” de quem denuncia. São sintomas de um racismo estrutural que atravessa séculos e que ainda encontra abrigo em estádios lotados, redes sociais e discursos políticos travestidos de normalidade.

Escrevo este texto não apenas como mero observador, mas como educador há mais de 30 anos, militante político e cidadão do mundo. Ao longo da minha trajetória, já me deparei diversas vezes com situações de racismo. Guardo lembranças inclusive da infância e juventude, marcado por uma geração que apesar de muitas qualidades, no aspecto das diversidades étnicas, por muitos anos naturalizou o preconceito racial. Nunca enxerguei o silêncio como alternativa. Sempre entendi que confrontar é parte do processo educativo e civilizatório. O silêncio protege o agressor; a denúncia protege a dignidade. É exatamente isso que Vinícius faz: ele denuncia.
Vinícius não incomoda apenas por ser um dos melhores jogadores do mundo. Ele incomoda porque é um homem negro, jovem, talentoso, bem-sucedido, protagonista e, sobretudo, consciente do que representa. Ele não aceita ser ofendido como se fosse parte do “folclore do futebol”. Ele não aceita a lógica do “é só brincadeira”. Quando torcedores gritam “macaco”, não estão apenas xingando um atleta. Estão acionando um imaginário colonial que historicamente desumanizou corpos negros para justificar exploração e dominação. Como ensinava Frantz Fanon, o racismo é mecanismo de alienação e desumanização. Ele tenta convencer o oprimido de sua inferioridade. Quando o oprimido reage, a estrutura se sente ameaçada.
A reação à autonomia negra
Sempre que um negro rompe o estereótipo da docilidade, o incômodo cresce. Vejo isso não apenas no futebol, mas na educação, na política, na ocupação de espaços de liderança. Um exemplo recente é o relacionamento de Vinícius com Virgínia Fonseca. A reação desproporcional de parte das redes sociais revela algo que raramente aparece quando outros famosos assumem romances. O desconforto não está apenas na curiosidade sobre a vida privada; ele se conecta a uma lógica histórica que tenta regular afetos e controlar a liberdade do homem negro, especialmente quando ele ocupa espaços de prestígio e visibilidade. Quando o negro ascende, ama, prospera e fala, ele desestabiliza hierarquias simbólicas que muitos prefeririam manter intactas.
Racismo não é “mimimi”, é estrutura
Sempre procurei explicar aos meus alunos que o racismo estrutural não depende da intenção consciente de todos os indivíduos para existir. Ele se manifesta na naturalização das ofensas, na relativização da dor, na inversão que transforma a vítima em “exagerada”. Stuart Hall já apontava como o racismo opera culturalmente, moldando percepções e legitimando exclusões. O futebol é apenas um dos palcos onde essa disputa se torna visível.
Também não é coincidência que essas manifestações racistas ganhem força em um contexto europeu marcado pelo crescimento de ideais ultranacionalistas, pelo avanço de partidos e lideranças políticas influenciadas por concepções consideradas neofascistas e por discursos que resgatam noções de pureza identitária, fechamento de fronteiras e rejeição ao multiculturalismo. Quando essas narrativas se fortalecem no debate público, criam-se ambientes mais permissivos à intolerância. O estádio, nesse cenário, torna-se extensão de tensões políticas mais amplas, onde Vinícius Júnior simbolicamente passa a representar aquilo que esses projetos ideológicos rejeitam: diversidade, mobilidade social e presença global.
O papel da educação e das leis
O Brasil carrega a marca profunda da escravidão, mas também construiu instrumentos importantes de enfrentamento: a Constituição de 1988 que tornou o racismo crime inafiançável e imprescritível, a Lei 7.716/1989, o Estatuto da Igualdade Racial e as políticas de ações afirmativas que ampliaram o acesso da população negra às universidades e ao serviço público. Esses avanços não são suficientes, mas são conquistas civilizatórias. E foram fruto de luta.
Como educador, acredito profundamente que a transformação passa pela escola. A implementação séria da Lei 10.639/2003, que inclui a história e cultura afro-brasileira no currículo, é ferramenta essencial para formar novas gerações conscientes, críticas e menos suscetíveis à reprodução automática do preconceito.
Precisamos de mais vozes que incomodem
Vinícius Júnior representa mais do que talento esportivo. Ele simboliza uma geração que não aceita ser silenciada. Sua postura me lembra algo que sempre defendi em sala de aula e na militância: é preciso colocar o dedo na ferida. Sim, isso gera vaias. Sim, provoca reações. Mas também produz consciência.
Se queremos uma sociedade verdadeiramente democrática, precisamos formar novos jovens que não naturalizem o racismo, que não relativizem a violência simbólica e que tenham coragem de denunciar — nos estádios, nas universidades, na política, nas redes sociais. A liberdade negra sempre incomodou quem se acostumou a privilégios. E continuará incomodando. Mas cada denúncia pública, cada aula crítica, cada lei aplicada com rigor e cada voz que se levanta torna essa estrutura um pouco mais frágil. E é exatamente por isso que não podemos recuar.
*EDSON JÚNIOR MATOS DOS ANJOS É HISTORIADOR FORMADO PELA UNIVERSIDADE ESTADUAL DA BAHIA, PÓS GRADUADO EM TURISMO E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, PÓS GRADUADO EM GESTÃO DE RECURSOS HUMANOS, PÓS GRADUANDO EM HISTÓRIA DO BRASIL E PROFESSOR DO COLÉGIO ESTADUAL PROFESSORA ADJACI MARTINS DURANS DE VÁRZEA NOVA – BA.
Fonte: noticialimpa.com.br