Carlos Karoá escreve: ‘MEU CLUBE DO CORAÇÃO’

Beirando os dezoito anos, comecei a respirar ares do sudeste brasileiro, numa cidade vizinha do Triângulo Mineiro, (Uberlândia Araguari e Uberaba) chamada Ituiutaba. Naquela época, pra mais ou pra menos, 50.000 pessoas transitavam em suas ruas. Meu pai fez esta troca de região, a convite de um velho conhecido seu, o Sr. Lourival Barreto morador antigo de Barra do Mendes, que pela busca de dias melhores havia se mudado para lá e, portanto, quando cheguei por aquelas bandas, tinha a companhia dos meus antigos amigos de infância, filhos do Sr. Lourival, o autor do convite. Estudantes do mesmo Colégio, moradores das mesmas cercanias, era comum estar com eles, nas diversões dos finais de semana. Uma delas era a visita ao clube social de campo, se iam, me levava a tiracolo, convidados não pagavam pelo acesso.

O Ituiutaba Country Club, para mim era uma novidade festiva. Um campo de futebol com iluminação noturna, restaurante, salão de jogos, piscina e o burburinho social que me deixava de olhinhos brilhantes de encantamento. Eram eles, os clubes sociais de campo, um pedacinho do paraíso aqui na terra. Diversão e “status”, até um dia qualquer, de sol e “verão caliente”, quando um sócio qualquer, resolver visitar o “oásis” pra se refrescar e o regalo sumiu, ” deu com os burros n’água.

Ao chegar na portaria foi avisado não por um porteiro mas por um vigilante, que o clube estava de portas cerradas, simplesmente faliu.

Acredito que nos anos 40 do século passado, os clubes sociais de campo, já pontuavam nas grandes cidades brasileiras e aos poucos, foram se multiplicando também nas cidades de médio porte, tornando sonhos de consumo, das famílias ditas classe A, até a classe dominante, as chamadas classe média nacional. Um título de sócio de clube, era certeza de diversão nos dias de ócio coletivo, os pachorrentos domingos e feriados nacionais. Havia dois tipos de sócios, aqueles de títulos comuns e os nominados “sócios remidos”, quando o título era vendido para o custeio da obra, com preço único e o comprador se tornavam visitante vitalício, sem mais nenhum custo de frequência. Era “Chic” ser um associado, o morador da casa ao lado, sem este “apetrecho” de diversão, morria de inveja do vizinho de portão, quando a família inteira estava de batom e camisetas, pra visitar o clube do coração.

Os clubes sociais, ofereciam o que de melhor havia, para a diversão da família:

Campinho de futebol, salão de jogos, restaurante, piscinas adulto/infantil, um festim social que dá até um nó no juízo, a gente imaginar porque tudo isto, foi pro beleléu. Explicação convincente eu sinceramente não tenho, acho que a razão do sumiço, é que quase tudo neste mundo, tem seu dia de “bem-aventurança” e também o seu dia de mudar de rumo, durar para sempre, nem pensar. C’est lá vie.

No início da década de 70, mês de abril para ser mais preciso, descambei pras terras da “capitá” pra cuidar da vida. Havia já naquela época, um número expressivo de clubes sociais de campo, oferecendo a sua serventia pra diversão da família.

Alguns particulares, outros extensão empresariais e alguns sob os auspícios dos sindicatos de classes.

O Campomar, particular, em Piatã, servia a chamada classe média.

O Clube do SESC, dos empregados da ala comercial, tinha a alcunha pejorativa de clube do povão, mas cumpria os seus deveres de provedor de diversão, com a servidão popular que lhes cabia.

Clubes Português e Espanhol, tinha os olhos voltados para os seus respectivos patrícios, apesar dos penetras de plantão, que não sendo D’alem mar, mas comungam a mesma simetria.

Costa Verde Tênis Clube, Clube Baiano de Tênis, Iate Clube da Bahia, com a régua da carestia bem perto do teto, servia a velha burguesia branca, descendentes dos descobridores do Brasil.

Os Bancos, tinham ou ainda têm, as suas associações tipo AABBs e no bairro da Barra, a Associação Atlética da Bahia, voltada mais para os moradores do tradicional reduto, de antigas elites soteropolitanas.

Em Feira de Santana, segundo maior ajuntamento urbano da Bahia, dois clubes se batiam na busca do título de maior popularidade. O Feira Tênis Clube e o mais antigo, o Cajueiro Country Club, este sem dúvida, também o mais conhecido. No reinado de “Momo”, ambos se vestiam dos luminosos adereços da folia momesca, com convidados famosos em reverência e elogios, naturalmente em troca de vultosos cachês. Seda, purpurina, confetes, serpentina, e muito lança-perfume até o vislumbre dos primeiros raios de sol do alvorecer. Bons tempos pra quem viveu. Quem não viveu, não vive mais. Em São Paulo, um clube, o Sírio Libanês, nesta época de “sambas e marchinhas” havia o glamour único dos desfiles de “fantasias’ sendo televisionado ao vivo para os compradores de ilusões. Homens e mulheres adornados de plumas, penas e lantejoulas, viviam as mil e uma noites, enquanto sacudiam penachos luzentes, nas luzes das passarelas. Tinham admiradores, eu era um deles.

Os clubes sociais de campo, principalmente os particulares, praticamente desaparecerem. Um dos motivos, foi a incorporação por parte dos condomínios, de quase tudo que eles ofereciam. Piscinas, salão de jogos, espaço gourmet, academias físicas e o conforto de não precisar sair de casa. Para quem viveu aquela época de burburinho social com familiares, amigos, parentes e aderentes, fica a saudade das emoções vividas. Não creio mais que voltam a existir, não há reversão de hábitos, não se corre para encontrar o novo, naquilo que ficou pra trás, a busca é e será sempre, encontrar o que ainda não existiu.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

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