Carlos Karoá escreve: ‘OS PENITENTES ‘

Lá na venda do Sr. Edmundo, um homem que gostava de filosofia provinciana, que não conhecia Sócrates ou Platão, mas que debulhava conselhos e ensinamentos existenciais, como se um filósofo “sêsse’, tinha em descanso rotineiro num cantinho do balcão, um livro de capa vermelha, cujo título eu não esqueci, apesar desde fato estar em dias longínquos da minha irrequieta infância. O nome do dito cujo era:

” O Poder do Pensamento Positivo”, do escritor norte americano, Norman Vincent Peale. Quase sete décadas depois e estas lembranças continuam em mim, latentes e curiosamente, não foram embora do meu juízo.

Vez em quando, eu entrava na venda do Sr. Edmundo, pra comprar alguma coisa, talvez balinhas ou caramelos, porque nesta época eu ainda usava calças curtas sustentadas em simplórios suspensórios. E lá estava, para mim misterioso, o livro descansando no seu lugar de sempre, num cantinho discreto do balcão, esperando que alguém o folheasse e tentasse entender os seus mistérios. Por ser ele, o livro, sem gravuras ou fotografias, nas Primeiras páginas desnudadas, me sentia enfadado e desinteressado, talvez por estes detalhes, seu letreiro nada me dizia. Quando fedelho, em tempos de professores em descanso, meu pai me despachava em lombos equinos, lá pras bandas do “milagre” povoado onde nasci. Talvez para deixá-lo aliviado por um tempo, das minhas travessuras e estripulias. O começo era uma festa, na companhia de primos e amigos depois de uma semana, me sentia entediado e querendo voltar, lá não tinha luz elétrica e tirar gorgulho do feijão sob a luz difusa do candeeiro, era um trabalho que gerava dividendos em aborrecimentos. Num desses recreios demorados, acho que foi em 1963, ano de seca e penedia impiedosa, presenciei uma cena sertaneja até então sabida, apenas de ouvir falar: Uma procissão de penitentes pedindo chuva aos céus. Senhoras e moçoilas, carregando latas e jarros adornados de flores, em rodilhas nas cabeças, numa súplica agonizante pedindo apenasmente chuvas, ao padroeiro São José e ao “Cast” santificado do reino divino. Entoavam cantigas e ladainhas cristãs, que apesar de longínquas, eu não esqueci. Uma delas era:

Santa Maria Madalena

Pedindo ao Senhor que traz chuva pra terra

Chuva na terra por esmola

Também o pão que nos consola

Nossa mãe Santana

Nossa mãe Santíssima…

Pediam porque existia no sertão da Bahia, este viés de penitência, onde a única arma para esta empreita, era o sacrossanto “poder do pensamento positivo”, coisa que apesar da descrença, pode construir ou demolir valores, onde a percepção humana muitas vezes, não consegue compreender.

Em cidades interioranas, nos anos 60 do século passado, o único parentesco tecnológico com as águas celestes, eram os simplórios pluviômetros cuja finalidade era a medição de “pingos” e certamente pela simplicidade instrumental, não auferia a correta milimetragem das águas caídas e a credibilidade suscitava dúvidas. As angústias da “seca” empurravam os sertanejos para o último recurso por uma lata d’água.  As penitências que evidentemente não surtiam efeito, não funcionavam, mas os caminhos da fé, estão bem distantes do que afirma a nossa vã filosofia, o povo fazia o seu dever de casa e ia para a cama com esperança de ter as suas preces, anotadas no caderninho do velho são Pedro. Às vezes, a ladainha funcionava, as chuvas caiam, mas era porque o tempo das precipitações, havia chegado. O sertanejo acreditava, porém, na generosidade do padroeiro do lugar.

Há aproximados mil metros, pra riba ou pra baixo, uma cruz de madeira de proporções admiráveis, descansa em solidão eterna, no topo da serra que margeia a vereda Romão Gramacho em Barra do Mendes. Desconheço o autor desse projeto sacrossanto e quando e como se fez ou foi feito, para se assentar este monumento de medidas grandiosas, lá no cimo da serra. É deveras intrigante. O fato é que o cruzeiro continua lá, impávido, sereno, majestoso, a testemunhar as venturas e desditas de um povo que o tem, como santificado tesouro.

Uma velhinha, de nome Benvinda Maria da Conceição Barreto, (conheci-a pessoalmente) tinha nas veias, o sangue sagrado dos penitentes. Era uma “mecenas da fauna” que habitava as cercanias agrestes da serra. Quando faltava a piedade dos céus e as areias e pedras do morro, se tornavam áridos e quentes como num deserto, dona Benvinda cumpria resignadamente um ritual dos mais nobres, de puríssima servidão humana. Levava em latas e baldes, a água para matar a sede de lagartixas, calangos teiús e demais habitantes rasteiros da região. Enchia pacientemente as poças naturais das rochas, tendo como companhia, o silêncio e em derredor, a solidão e a inospitalidade do lugar. Dedicou sua vida a esta ventura santificada, ação abençoada que só os deuses sabem o porquê, de tamanha servidão. Uma santa que merece de todo barramendense, respeito, reverência e admiração. Isto, a senhora tem de mim, Dona Benvinda.

Em 1887, Heinrich Hertz, físico alemão, provou para o mundo, a existência de ondas magnéticas e teve a sua unidade nominada de “Hertz” em sua homenagem. No início de 1900, as ondas Hertzianas começaram a ser usadas comercialmente na comunicação sem fio, com a fabricação de transmissores e receptadores elétricos, o nosso bom e velho sistema de radiodifusão. Anos antes, o físico escocês James Ckerk Maxwell, já havia feito teorias a respeito, afirmando que ondas magnéticas existiam e viajavam na velocidade da luz, coisa de cérebro anos luz na frente da nossa vã ignorância.

Acho que num futuro de médio alcance, o pensamento humano será alinhado a leis cósmicas, que estão adormecidas e somente a espera de alguém iluminado, que lhes faça o milagre da emersão. Acredito nisto como sei que o amanhã virá.

Não estará ao alcance da coletividade, porém mentes privilegiadas usarão o “Poder do Pensamento Positivo para “derrubar montanhas “. Estas ondas mentais, estarão em sintonia estelar, com a relatividade e a mecânica quântica e o poder de realizações deste fenômeno será de proporções ilimitadas.

A IA (inteligência artificial) nos dias de hoje, sob o carimbo de máquinas controladas, são capazes da indução de decisões humanistas. Imaginem daqui a alguns séculos, o que pensamentos e máquinas serão capazes de promover. Não é milagre, nada tem a ver com o desconhecido, será afirmativamente a tecnologia no mais alto grau de desenvolvimento e capacitação. Os penitentes usavam ou ainda usam, o “poder do pensamento positivo” alinhado com a fé divina e a esperança, numa súplica angustiante pela chuva venturosa. No futuro, o “Poder do Pensamento Positivo” estará em sintonia com ondas magnéticas, varrerão o espaço em busca de soluções, será o cérebro humano na sua capacidade plena de uso da engenharia, a serviço da humanidade.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

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