Carlos Karoá escreve: ‘OS COMPOSITORES’

A música, como me disse um dia, o amigo pé de valsa, Zeca de Alaíde, é talvez a única unanimidade da natureza humana. Acordes trinados em qualquer ajuntamento de cordas ou bocais, é sinônimo de avivamento de sorrisos ou escancaramento de dentes, em qualquer lugar do mundo. De tão longeva, sua origem se perde nos primórdios de civilizações, de homens e mulheres vestidas ainda com peles de animais. Vez em quando, um batuque de tacapes em tambores, poderia deixá-los meneando o torço, com possível sensualidade.

Mas, voltando o carretel do tempo e chegando na minha época de apreciador da arte de parir composições, tenho razoável domínio deste universo glamouroso, desde os anos 40 do século passado. E, o juízo a respeito, é de profunda admiração e santificada reverência.

A indústria amplia, inova, diversifica, evolui em todos os segmentos do produto manufaturado em suas linhas, mas a indústria não é arte, é invenção, não tem os sentimentos do coração, na sua esteira de montagem. A finalidade é o lucro, na ponta da prancheta de criação, está a sobrevivência da empresa. Sem inovação, pode perder a pole positivo pros temíveis conconcottentes.

As purgações mentais no quesito composições musicais, não obedecem ao termo correr contra o relógio. Podem durar minutos, semanas, meses ou até mesmo anos, dependendo da determinação do pretenso autor da peça.

Em 1880, pouco antes da sua morte, Joaquim Antônio da Silva Callado, compôs a polca “Flor amorosa”. Um primor de criação. Também dois anos depois, Quirino Mendonça Y Cortés, encantou México com o valseado ” Cielito Lindo”. Cito estás duas obras eternas, porque pontearam o século XIX, o século XX e agora o XXI, sem que seus versos sofressem, qualquer desgaste de execução. “Flor Amorosa” é decantada em teatros e saraus nacionais, como peça obrigatória e “Cielito Lindo”, é estampa conhecida mundo afora. Aqui no Brasil, acho que todo mundo já cantarolou os versinhos Ai ai ai ai, já chegou a hora, o dia já vem raiando meu bem eu tenho que ir embora…

A arte de compor canções, naturalmente obras de qualidade e não rimar amor e dor, tem mistérios existenciais. Não é só o tempo que conta, no desejo de novas investidas neste campo, que sem o auxílio da inspiração divina, não se vai a lugar nenhum.  Se o processo de criação, fosse evolutivo, teríamos hoje, no panteão de obras imortais, canções bem mais aprimoradas, que aquelas que debutaram nos anos 40 e 50 e ainda hoje nos apontam com referência de bom gosto. Mas não é assim que funciona, o viés deste calibre é um segredo que não sei. Alguns compositores, ainda hoje batendo pestanas, são da coletividade de amantes de harmonias fonadas, o lenitivo abençoado. Graças aos céus, existe um bichinho chamado celular, um troço chamado internet, para se garimpar adocicadas cantigas de amor.

Não poderia falar de compositores e não nominar, mesmo sabendo que a omissão do nome de alguns, é uma via dolorosa. Sejam todos eles abençoados.

Uma mandala grandiosa, estilizada por gosto pessoal, é o universo dos nossos compositores populares. Nada a dever a nenhuma outra cultura musicista.

Salve salve aos sambistas Noel Rosa e a  elegância simplório do mestre Ataulfo Alves, dos boêmios Adelino Moreira e a dupla Jair Amorim e Evaldo Gouveia, os pantaneiros Folks Renato Teixeira e Almir Sater, a genialidade bairrista brasileira de Ari Barroso, a versatilidade carnavalesca e também boêmia de João de Barro, o Braguinha, também aplauso para o preciosismo romântico de Herivelto Martins e David Nasser, salve Lamartine Babo, autor de todos os hinos dos grandes clubes de futebol do Rio de janeiro, a benção Monarco da Portela, representando neste texto, todos os compositores de sambas-enredo das grandes escolas, salve Luiz Gonzaga, um ponto fora da curva, ainda mais pelo estilo único e ser nordestino, salve Tom Jobim, João Gilberto e Vinícius de Morais, que aportaram na Lapa boêmia, a noviça bossa nova, fizeram história, criaram os dissonantes,  jogaram  a relatividade dos três  tons pra fora e mandaram a tristeza das canções embora. Salve a modernidade juvenil da turma da jovem guarda, que mesmo rompendo a barreira dos oitenta, cabeludos ou carequinhas, com dores nas juntas, mas sem nunca deixar a casa dos quinze anos, porque souberam eternizar com doçura e alegria os versos das suas letras.  Salve a genialidade do líder desta turma, o rei Roberto Carlos, uma estrela refulgente de um quilate, quase sem igual em todo mundo.  Salve os puros da alma sertaneja, nas figuras de Tônico e Tinoco, que adornaram com o tapete verde das folhas das Paineiras, o chão batido de carreiros, cancelas e porteiras de varais. Salve a Baianidade do tropicalismo de Caetano e Gilberto Gil, nominados gênios por honra e merecimento. Enfim, que lhes cubra, a todos os compositores, um manto púrpura de saudade e agradecimento dos amantes de tonalidade, ritmo e veneração por canções que aportam com ternura, o bem querer do coração.

Aleluia.

O tempo agora é de viver de saudades e a internet é a nossa mãe gentil.

Com a facilidade de clicks em teclados, o acesso a tudo que se esconde nessa rede estelar, custa apenas alguns segundos. Se o interesse é música de bom gosto, é preciso viajar por alguns anos passados, no tempo que se dava um tombo no louro, com a velha e querida “brilhantina”, porque o que se tem lá na esquina de agora, lamentavelmente não vale a pena se ouvir.

Mas alegrem-se, pasmem-se, ainda não se perdeu, o regalo das almas esperançosas, por um baticum bem cadenciado. Há um holofote aceso lá no outro lado do negrume, com notas e compassos brilhando, neste céu anilado que alguns incautos quiseram tornar cinza: São pequenos conjuntos de violões, baterias e corais de homens e mulheres de idades multicoloridas, os chamados “ministérios”. Católicos ou evangélicos, dão um banho de criatividade musical, com letras bem elaboradas, poesias harmoniosas, sempre com a temática voltada para o amor ao próximo, veneração divina e o caminho de pedrinhas de brilhantes.

Ouvi algumas vezes e me surpreendeu.

Forças superiores no comando com certeza.

O coral do santuário de Barra do Mendes, aplaudi de pé, reverenciando a performance. O coral do santuário de Morro do Chapéu, enternece por competência e afinação. Senhoras e senhores, há muito tempo eu não ouvia canções ao vivo, com beleza rítmica e harmonia, que merecesse a minha admiração.  Por isto, dou um conselho a todos aqueles que têm percepção por trinados e uma batera bem ritmada.

Se quiserem ouvir música de qualidade, simplesmente, vão pra missa.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

Compartilhe

SIGA-NOS

PUBLICIDADE

MORRO DO CHAPÉU