Carlos Karoá escreve: ‘COPA DO MUNDO’

Havia uma formiguinha ou poderia ser uma formigona, varrumando os miolos do então jovem presidente da FIFA, Jules Rimet. Intuitivo, íntegro e respeitado diante dos seus afiliados espalhados mundo afora sonhava diuturnamente em organizar um campeonato mundial de futebol.

Em sua cabeça de visionário, imaginava que o esporte poderia ser uma válvula de semear a paz e a amizade entre as nações. Estava certíssimo. Também imaginava que poderia ser redenção econômica para os menos afortunados, bastava naturalmente que tivessem talento e determinação. Continuava mais do que certo, um mago moderno.

Jules Rimet nasceu em Theuley, um povoado no nordeste da França, em 14 de outubro de 1873. Em 1921, deixou a presidência da Federação Francesa de Futebol, para assumir a presidência da FIFA. Mais prestígio e mais vitrine esportiva diante das federações de futebol do resto do mundo, o que certamente viria ajudá-lo a realizar o seu sonho, o de premiar um campeão mundial neste esporte cativante e de paixão sem limites.

A dúvida que angustiava o presidente sonhador era qual seria a primeira nação a sediar o torneio.

Nos anos 20 do século passado, a Europa estava em crise econômica devido a guerras. O conflito prussiano, a proximidade do final da primeira grande guerra e a revolução na Rússia que derrubou do trono de décadas, a Família Romanov. As chances de realização do torneio na Europa eram mínimas. Coube ao Uruguai em 1930, está honra venerável, uma vez que comemorava o centenário da constituição e havia vencido os jogos olímpicos no quesito futebol, em 1924 na França e em 1928 em Amsterdam na Holanda. Uma honra plenamente pertinente e justa. Não houve desta vez, uma competição eliminatória. A presença era justificada mediante convite da federação mãe, no caso a FIFA. Alguns países convidados recusaram a deferência esportiva por dificuldades financeiras. Também naquela época, o transporte era marítimo, o que demandava muito tempo ocioso. Ficar num navio dois meses jogando dominó e baralho, a espera de uma partida de futebol não ajudava muito a autoestima dos jogadores. Apenas 13 seleções aceitaram o desafio:

Argentina, Bélgica, Brasil, Bolívia, Chile, Estados Unidos, França, Iugoslávia, México, Paraguai, Peru, Romênia e Uruguai.

Justificando a excelente participação nas olimpíadas, o Uruguai vence o primeiro certame de copa do mundo. A festa foi sul americana por competência e merecimento.

Em 1934, a Itália aceita organizar o evento esportivo, apesar de a Europa ainda estar em conturbações políticas, devido o pós-guerra de 1918 e as aspirações desvairosas de Hitler e Mussolini em armar seus países para um possível confronto de proporções mundiais. Mas o futebol tem a força da paixão e o mundial foi celebrado com a Vitória da Itália na segunda edição do batimento de chuteiras.

Em 1938, apesar da iminência de um conflito planetário, a França usurpa o direito sul-americano de organizar o mundial. O sucesso financeiro da copa anterior, o prestígio do presidente da FIFA por ser gentio, causou o primeiro imbróglio desportivo levando a Argentina que pleiteava a contenda nos gramados, a abandonar a decisão de participar dos jogos. Alguns países de origem latina foram solidários e recusaram viajar pra Europa. Apenas 16 competidores estiveram presentes. Os únicos abaixo dos trópicos foram Cuba e Brasil sendo este último, o único a estar em todas as edições da festa das chuteiras.

A segunda guerra mundial inibe por completo a realização dos jogos, em 1942 e 1946. Em vez de bola, o mundo tinha bala, em vez de vida o mundo tinha a morte em vez de gritos de alegria, o mundo tinha bramidos de desespero. Está quimera de apupos de bem quereres, felizmente vai retornar aos estádios em 1950, agora no Brasil, a terra de um Deus que o futebol mostrou pro mundo, o eternizado e para sempre rei Pelé.

Em 1950 o Brasil tem a honra de sediar a copa do mundo. A espera dos atletas está o maior gramado do planeta: O estádio Mario Filho, o nosso Maracanã. E nele o escrete brasileiro vai ao final da peleja precisando apenas do empate para ser campeão. Faz o primeiro gol, mas tragicamente sofre uma virada pra dois a um. É o fim do sonho de ser campeão do mundo. Duzentas mil vozes presentes, em lágrimas de decepção, vêem o Uruguai se tornar BI campeão do mundo.  Futebol apaixona porque o imprevisto tá logo ali na esquina. Antes do final do apito, não aposte sua camisa.

Em 1954 o mundial é na Suíça, com a Alemanha conquistando o seu primeiro título em copa do mundo. Com a Europa no pós-guerra, não houve novidades nesta edição dos jogos.

Em 1958, o paulista Vicente Feola, é convidado para comandar a equipe brasileira nos campos da Suécia. Treinador do São Paulo, não titubeia em aceitar o desafio. Seria uma honra. Talvez por ser paulista, resolve chamar um Garoto do time do Santos Futebol Clube, que naquela época tinha apenas 17 anos. Seu nome; Édson Arantes do Nascimento, seu apelido Pelé, seu destino ser o maior jogador de futebol nos Gramados do mundo, em todos os tempos.

Ganhamos as copas de 1958 na Suécia, de 1962 no Chile, de 1970 no México, de 1994 nos Estados Unidos e a de 2002 no Japão. Somos os únicos penta campeões do planeta. Aleluia. Aleluia.

Alemanha e Itália têm quatro títulos

Argentina, Uruguai e França duas conquistas.

Inglaterra e Espanha apenas 1 título cada.

Nesta copa do Catar, um dia histórico para todas as mulheres desportivas do planeta. A tarde de 01 de dezembro de 2022, no jogo Alemanha x Costa Rica, o trio de arbitragem foi feminino, num país muçulmano onde senhoras e senhoritas têm que cobrir o rosto pra viver e atender tradições.

Nominar é preciso.

Árbitra central a francesa Stéphane Frappart.

Bandeirinhas, Neuza Back do Brasil e a mexicana Karen Diaz.

A copa do mundo não é apenas uma batelada de nações, em busca de um título internacional de futebol. Tem coisas em demasia, nesta corrida de anseios e emoções, desde o momento que começam as eliminatórias.

A movimentação financeira que envolve está contenda, chega a milhões de dólares, euros, pesos e reais em todo os mercados. A geração de empregos supera os maiores conglomerados empresariais da terra. A visualização via TVs, em número de espectadores, é a maior em termos de audiências de matrizes e suas afiliadas. Enfim, é sempre um bom negócio vender os produtos gerados pela marca “Copa do mundo”.

Mas, há um outro tipo de sentimento humano, que as televisões mostram, porém é impossível torna-lo objetos de se vender em lojas:

São as comoçães que uma paixão pode revelar. No início dos jogos, o amor ao chão que muitas vezes está distante, na hora da execução do hino nacional, traz lágrimas de uma emoção que não cabe no peito, naquela hora entorpecido de saudade.

Um gol desejado, ansiado como a redenção dos pecados, libera um grito de purgação de todos os males aninhados, segregados numa mente prisioneira, doidinha por liberdade.

É quando se pode perceber, até mesmo com surpresas, que o patriotismo não nos deixou por inteiro. O amor ao chão onde nascemos orgulhosamente ainda existe. Que possamos nestes momentos jubilosos, reslumbrar o nosso amor à pátria, amor a terra onde respiramos pela primeira vez. É um gesto de gratidão e gratidão às vezes vale mais que um gol em copa do mundo, verdadeiramente não tem preço.

Que assim seja para todo o sempre,

AMÉM!

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

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