O substantivo feminino “inutilidade” está em voga, apesar de séculos seculoreun de aprendizado da humanidade. Aqui e acolá, ele está pintando na nossa prateleira de besteiras e continua sendo uma “elefanta branca” na mesa de cabeceira de quem tem tempo de sobra pra cultuar futilidades ou uma dinheirama empacotada vazando pelo ladrão, na hora de coçar o bolso.
Vez em quando, me pego questionando para que serve “aquilo” e me admirando porque” aquilo” tem demanda de mercado. No decorrer deste texto, irei me perguntando e respondendo a respeito do que penso sobre “aquilo”, mas me reservando o direito de informar que é apenas a minha opinião neste universo de gosto, admiravelmente discutível.
A frase “nem só do pão vive o homem”, pelo simbolismo, percebe-se que tem origem bíblica e estampa uma necessidade da alma, daquilo que transcende os nossos pensamentos e certamente por isto, a pertinência sobre o assunto é validada, tá na mesa, tá na pauta da reunião, na hora de se gastar dividendos com coisas que está além da nossa imaginação, mas que não tem a menor serventia prática, ou seja, não serve pra comer, vestir, beber, arremediar, dormir ou mais profundamente, sonhar.
Existem por aí e este aí se estende ao mundo inteiro, centenas ou milhares de pinacotecas públicas ou particulares, descansando em paredes nuas ou apinhadas de obras de arte, vigiadas eletronicamente 24h por dia. Estes penduricalhos bonitinhos, podem ser permissíveis a visitação coletiva ou reservadas aos olhares do dono ou à alguns amigos do peito, convidados a este deleite visual. O que varruma a minha inconcebivibilidade, tabaréu das barrancas do “Gramacho”, é o valor de mercado de determinadas criações artísticas, já que, de praticidade existencial, são elas positivamente dispensáveis. Vou usar como exemplo, para esta minha birra pessoal, a obra “Guernica” do espanhol Pablo Picasso, com medidas precisas de 7,76 metros de comprimento por 3,49 MTS de altura, exposta no Museu Nacional de Arte Rainha Sofia, em Madrid capital da Espanha. E também no mesmo rastro, a preciosíssima e talvez a mais emblemática obra de arte do planeta Terra, a pintura a óleo sobre madeira, “o álamo”, O quadro La Gioconda ou A Monalisa, do italiano genial Leonardo da Vinci, com medidas precisas de 77 cm por 53cm, exposta no Museu do Louvre em Paris. Embora produzidas em épocas distintas, a primeira em 1937 e a segunda em 1503, ocupam o mesmo patamar de veneração, de cultuação pública mundial pela arte dos pincéis.
O valor artístico destas obras, não cabe questionamento, mas, convenhamos, são apenas quadros pincelados por mãos geniais, habilitados a um regalo visual, mas estão incrustados na parede, não têm vida.
Não há estimativa de valor financeiro para o mural “Guernica” do genial catalão cubista e se houvesse, certamente seria astronômico, com parâmetros beirando os céus. Mas, a “Monalisa”, especialistas do mundo dos pincéis, depois de análises de vários quesitos, estimaram o valor nominal da obra, numa bagatela arrepiante de 13 bilhões de reais. Senhoras e senhores, com estes trocados debaixo do colchão de lá de casa, eu mandaria construir dezenas de hospitais públicos, equipados com o que há de mais moderno no mundo das seringas e bisturis, escolas públicas pintadinhas de amarelo ouro para guiar os primeiros passos de milhares de guris, um montão de estradinhas vicinais para se chegar com mais conforto no sítio da vovó, apoio generoso à agricultura familiar e um tantão de parques infantis, com carrosséis doirados, que pudessem levar quando soasse a campainha do recreio, centenas de garotos pro mundo lúdico das briosas ilusões. É mais certo que duvidoso, que um bilionário qualquer, vá dispor tamanha quantia para ter na parede da sala, um bem tão precioso, mas convenhamos, louvores em demasia, por coisas que as vezes serve apenas, para se derrear os olhos por alguns segundos, soa para os sensatos, como um naco pequenino de futilidade. Assim também, já é demais também.
A paixão, é como o princípio de tudo: Cintilante e beirando a perfeição. Ninguém sabe de onde veio, ou onde ela se esconde, mas, por ser humana, sua irracionalidade é uma desdita que todo mundo não se importa de sentir, de viver e aceitar.
Uma das paixões mais inebriantes do intelecto ou burralecto cerebral humano, é aquela que ulula nos campos de futebol mundo afora. De um lado, o amor insofismável do torcedor apaixonado pelo clube do coração e do outro, o jogador profissional que vai vestir durante a sua vida de atleta, a camisa da agremiação que mais gordinha vai deixar, a sua conta bancária. As cores das camisas, para ele não tem a menor importância. A vida é assim, parecida com leilão: leva quem dá mais.
Uma curiosidade, porém, nos leva outrossim, para este mundo da inutilidade.
Quase a totalidade dos viventes deste mundo de chuteiras e meiões, resolveram adotar uma coisa, para os viventes do mundo de cá, proscrita, negada e inaceita. É a caricata do grotesco para uns e o adereço da beleza para outros. Estamos falando da tatuagem.
Sem nenhuma disciplina, sem atenção ou respeito por tradição, sem vínculo com simbolismos, cobrem de maneira indistinta todo o corpo visível quando estão paramentados. Perfilados, ostentam orgulhosos o trabalho do tatuador, vistoso como a luz dos holofotes que encandeiam o verde dos gramados.
Pescoço, garganta, braços, pernas, dorso das mãos, tudo assombreado, com o azul escuro da tinta utilizada para este tipo de aplicação na pele. Quase toda a totalidade dos jogadores profissionais de futebol, aderiram a este modelo de enfeite, se é que possamos chamar de enfeite, visto que até aqueles de pele escura, também se tatuam, e com a tinta quase da mesma cor, não há contraste, nada se pode ver com nitidez. Enfim, o que se pode argumentar ou admitir, é a fronteira do bom senso. Uma “tatoo” discreta, de bom gosto, bem feita, merece o “iso” de obra de arte sem dúvida. Um corpo coberto de dragões, lagartos, palhaços, escorpiões, tigres e teias de aranha, é sem propósito, é vazio, é simplesmente mais um exemplo de inutilidade.
Em 1949, com o término da segunda grande guerra, em 1945, a conferência na cidade alemã de Postdam, resolve que o butim dos vencedores, vergonhosamente para os derrotados é evidente, seria e foi a cisão territorial da vencida Alemanha entre os aliados e União Soviética. Criou-se então a República Democrática Alemã para os Russos e República Federal Alemã para Bretões e Americanos. Desde lá, não existe “Fair play” entre capitalistas e socialistas. Não trocam socos e pontapés em praça pública, porque ambos têm medo que alguém aperte determinado botão vermelho e mande tudo pelos ares. Democracia e socialismo são dois bicudos que não se beijam e assim começaram uma “guerra fria”, cutucando sempre que podiam, o orgulho nacional de cada um. Apoiadores distintos dos dois regimes, espalharam-se mundo afora, alguns por convicção, outros por medo do fogo do dragão.
Para se saber, quem tinha a maior bala na agulha, as duas potências começaram a perder civilidade mundo afora, quando poderiam ser gentis. Aqui no Brasil, aliado americano, quando algo não ia bem, se dizia “a coisa tá russa” numa alusão clara de diminuição da sociedade dos povos, habitantes das estepes geladas da Sibéria. Disputavam mundialmente tudo que podiam, até que de idiotices a idiotices, chegaram a um desafio certamente a altura das suas vaidades:
A hegemonia espacial e a honra de quem pisaria pela primeira vez, o solo lunar.
Iniciou-se desse modo, uma busca desesperada por cérebros especiais, as mais luzentes cabeças pensantes do lado ocidental, para este desafio sem parâmetro na história do mundo. O engajamento era quase obrigatório para físicos, matemáticos, calculadores de hipérboles gigantescas, curvamente estelar, movimento de translação, Rota lunar, posição de eixo na hora de acoplamento, num universo de engenharia jamais experimentado desde a fundação da NASA. Até a serventia de sobrevivência dos enclausurados nos laboratórios de experimentos foi severamente acentuada. Tudo isto nos subterrâneos da National Aeronautics and Space Administration na cidade de Washington D.C.
Finalmente, a fita de chegada foi quebrada pelos americanos. No dia 20 de julho de 1969, o astronauta Neil Armstrong, pisa o solo lunar pela primeira vez, na linda história de vida do planeta Terra. Alguns bilhões de dólares, foi o custo desta empreita caprichosa. A última vez que uma missão tripulada pousou no nosso satélite, foi em 1972. De lá para cá, perderam o interesse pela noiva dos enamorados. Acho que perceberam o tamanho da inutilidade. Desenvolvimento espacial é uma coisa necessária. Gastar bilhões, sabendo que no fim deste arco-íris o pote de ouro está vazio, é de uma incongruência sem limites.
Bilhões de dólares foram dilapidados nesta empreita gigantesca Era a honra e a supremacia da América que estava no tabuleiro do mundo, lugarzinho em que ela sempre quis ser a senhoria. Tudo nesta caminhada festiva tem um preço, de graça mesmo, só o ar que nos faz, arribar os pés.
Perdemos muito tempo de nossas vidas, cultuando inutilidades.
Vícios perigosos, álcool em excesso, buscar o que não somos ou que não temos, viver de aparências, arriscar a vida para ser o mimo do olhar alheio.
Quando a morte chega, o que nos resta mesmo e lamentavelmente é a escuridão ou para os mais otimistas, a serenidade do descanso eterno.
Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.