Carlos Karoá escreve: ‘DIA DE FEIRA’

Já que tu vai lá pra feira, traz de lá para mim, água de fulô que cheira um novelo e um carrin….com estes versos de um caipirismo arraigado de profunda singeleza, o “Cantador” Elomar Figueira de Mello, nascido no município de Vitória da Conquista, em 21 de dezembro de 1937, explícita sem ambiguidades, o significado do termo “feira” na essência concreta da tradição brasileira, cujo ajuntamento de pessoas em local determinado, num dia da semana,  tudo se comercializa, com as bênçãos do nosso Senhor Jesus Cristo. Esta tradição, vem de muito longe e documentos atestam esta atividade, mesmo antes do Mestre aparecer nas terras do Oriente. O nome “feira” deriva da palavra “feria” que no Latim significava dia santo ou feriado e talvez com esta proximidade com o Clero, estes ajuntamentos se faziam perto das igrejas, na época das festanças religiosas.

Em Barra do Mendes, no meu tempo de guri, estas reuniões se faziam na Praça Nova, onde a farinha e a maioria dos grãos, era vendida em pequenos caixotes de madeira, que tinham o curioso nome de “pratos”. Ali tudo se comprava, tudo se vendia e as vezes também nos chegava, um pouco de “anarquia” pois sempre tinha um bêbado numa bodega qualquer fazendo o que não devia. O circuito das feiras, no noroeste do estado da Bahia.

Geralmente, ocorria e até hoje é assim nos finais de semana, começando na sexta até o domingo. Naquela região, só Barra do Mendes e Irecê, faziam o ajuntamento nos dias de segunda feira, com estes nômades mercadores, perambulando penosamente com suas barraquinhas de bugigangas, à cata de fregueses das suas quinquilharias.

Nos anos 60, 70, era comum o trafegar de caminhões, carregados de “mascates” fazendo semanalmente a peregrinação pelo circuito das feiras, no noroeste do Estado. Estas reuniões comerciais, não eram tão somente de cunho comercial, para a venda do que se plantava ou do que se colhia. Lá também era local de encontro de namorados, de diversão e “livusia”. Tinha mágicos com baralhos marcados, velhos e desbotados pelo uso; macaquinhos serelepes que até hoje não sei como realizavam o truque pra tomar dinheiro; vendedores de remédios milagrosos, que nada curavam mas mal também não faziam, pois era apenas uma garrafada de fécula de mandioca com anilina; propagandistas de algum produto, que impressionavam pela gritaria e o suor que derramavam, na ânsia de sensibilizar quem os assistia;  vendedores de literatura de cordel, com a história de João Acaba Mundo e a Serpente Negra, que se tornou famosa pela ousadia; bêbados arruaceiros, e raparigas  interesseiras, à cata de fregueses para suas alcovas, vazias de amor verdadeiro.

Os mascates, eram “arautos” da alegria da molecada. Nas suas barraquinhas, podíamos encontrar realejos de Flandre, realejos coloridos que a gente dizia ser de madrepérola, flautas de Flandre, ioiôs coloridos, bonecas, bolas de borracha, bolas de gude,  pinhões de madeira, pinhões coloridos, revólver que se colocando uma espoleta, produzia o som  de um tiro de verdade, sanfonas de plástico e outros itens que deixavam mais felizes as donas de casa, tipo novidades para o seu dia a dia. Até vendedores de joias, apareciam com a sua maleta valiosa numa banquinha de madeira, porque naquele tempo, ladrão era coisa que só existia nas telas do cinema.  Hoje os mascates desapareceram, os ladrões se multiplicaram e dos vendedores de joias, nem notícias mais se pode dar. Esfumaram-se no medo da morte precoce, e no surrupiou de bens, ungidos de impunidade, num país onde o assaltante é vergonhosamente, um protegido do Estado.

Em cada cantinho marcado no chão, como se fosse uma posse por usucapião, vendedoras de café com brevidades e bolinhos de fubá, ganhavam o “pão”. Eram itens obrigatórios nestes ajuntamentos, mulheres vendendo doces e salgados, até mesmo, o arroz com feijão. Também na minha adolescência, fui um feirante de tecidos e aviamentos. Meu pai e eu. Coisa que as vezes me dá saudades, porque a diversidade da vida pode trazer valores e sendo louvores, é difícil esquecer. Minha homenagem a Ritinha e sua irmã Marina, vendedoras de café em seus bules esmaltados e multicoloridos, enfeitados de florezinhas brancas, lírios e margaridas, num cantinho da Praça Nova em Barra do Mendes, onde praticamente dedicaram as suas vidas.

Quando aportamos por aqui, na terra do frio, notei a ausência barulhenta dos mascates, como parte deste ajuntamento de mercadores. A cidade já era distante das povoações do sertão, longe do circuito onde eles estavam acostumados a trabalhar. Lá, a curta distância entre as vilas, favorecia a locomoção. Aqui no Morro, os ajuntamentos eram feitos na praça Dr. Augusto Públio, junto ao mercado das artes, que naquele tempo abrigava os comerciantes cuja mercadoria, não podia estar exposta à neblina matinal, elemento meteorológico muito comum nos anos 60.

Mocinhas e donas de casa, vinham pra feira com coloridos casaquinhos de frio e sombrinhas também coloridas, para evitar molhar os cachos.

A importância de uma reunião deste tipo, nas comunidades de todo o noroeste do Estado, era de Vital sobrevivência. O camponês trazia o que produzia trocava por dinheiro e levava pra casa o querosene, o açúcar, o sal, o fósforo, o papelzinho pro cigarro, bebia alguns copinhos de cachaça na venda e voltava pra casa feliz da vida. Alguns até, pegavam o caminho de volta, embriagados, porque as vezes, se excediam na branquinha. Hoje, a concorrência dos mercados, sepultou de vez a festança dos mascates. Antes eram comuns, hoje despertam curiosidade.  Nesta vida, tudo, tudo mesmo, tem seu prazo de validade, Vamos pra feira comprar verduras frutas e legumes, pois o frescor da horta, ainda tem o seu valor e o precinho as vezes, é bem mais camarada que os cobrados nos supermercados.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

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