Carlos Karoá escreve: ‘OS DRAMAS’

Carência de afeto nos faz mais doadores e receptivos, necessidades coletivas nos faz mais criativos, práticos e inventivos, carência de novidades nos faz buscar soluções onde nos permite, as nossas possibilidades.

No início dos anos dourados, nem sempre o ouro reluzia nas ruas da nossa cidadezinha, escondida no pé da serra do povoado Milagre, fora da retidão da estrada Federal que sai de Xique-Xique até Feira de Santana. Novidades por estas bandas, esperavam meses pra bater na porta. E foi por isto, que de vez em quando, as meninas da Praça Nova, da Rua Juraci Magalhães ou da praça Nestor Coelho, vez em quando resolviam fazer um “drama”, para espantar ocasionalmente, a mesmice, a rotina que nos afligia pela pachorrice de todos os dias. Os “dramas” daquela época, consistia em separar um cômodo de casa fazendo dois ambientes, utilizando lençóis ou cobertores.  Preparava alguns números de canto e dança convidava a molecada pra assistir. Eram instantes de entretenimento juvenil sem nenhuma conotação financeira. Os atores, as atrizes, os cantores, os dançarinos, parentes e enxeridos, ficavam na parte de dentro da cortina improvisada. No lado de fora, a plateia com cadeiras e tamboretes nas mãos, pra ninguém roubar o seu lugar. A gente ria pra dedéu.

Era hilário demais. De cinco em cinco minutos, alguém botava a cara no cantinho da cortina improvisada, para avaliar o número dos espectadores. A movimentação era intensa nos bastidores. Vez em quando um dos artistas saía com o rosto pintado de amarelo, olhos pretos e boca vermelho carmim, para buscar alguma coisa fora do palco arranjado de última hora.  A garotada ria pra dedéu.

Sempre que surgia a notícia que iria ter um drama na casa de alguém, a novidade se espalhava como a rapidez da luz. A gente não tinha que pagar ingresso, porque o espetáculo oferecido era de total amadorismo. Não se podia cobrar qualidade, no show oferecido pelas meninas organizadoras, porque todas elas eram movidas apenas pela vontade de ver algo diferente, fugir da rotina, do reme-reme do dia a dia, de uma cidadezinha interiorana dos anos 50. Façamos justiça, elas se esforçavam horrores para oferecer beleza nos números apresentados. Tentavam tenazmente para fugir dos padrões do amadorismo. Se não tinha luz elétrica, a claridade vinha dos candeeiros pendurados em pregos nas paredes. Todos de luz amarelada, alimentados por querosene, esta fração preciosa entre o óleo diesel e a gasolina, que naquele tempo a gente comumente chamava de “gás”. Não havia apupos, apenas ríamos, ríamos prazerosamente de tudo que aparecia no palco rasteiro improvisado. Eram noites gloriosas, as noites dos dramas amadores. Só de lembrar, Morro de saudades.

Houve, porém, numa ocasião, cuja data o tempo roubou dos meus pensamentos, uma apresentação grandiosa no Clube Social Barrense, sob a batuta magistral das filhas do o Sr. Almerindo Guedes. Este Sr., exímio saxofonista, respeitado e admirado nos meios musicistas da região, num teteretê amoroso com sua mulher, dona Celina, pariram para o mundo, filhos e netos exemplares. O filho Geraldo e o neto Jorge, foram futebolistas da mais alta extirpe. As filhas, Cilene e Dizinha, tinha no sangue, a arte de encantar plateias.

Com a ajuda dos gentios barramendenses, realizaram um empolgante show business interiorano. Estudante da capital, Cilene Guedes era a mais atuante nas artes cênicas. Chegou a se profissionalizar em teatro e levar o seu talento ímpar para os palcos. Era a cabeça pensante na organização dos desfiles cívicos, religiosos ou festejos do folclore tradicional. Se merecesse o crivo da criatividade, lá estava a família Guedes segurando as rédeas do pelotão de frente.

Nos dias que antecederam a “apresentação”, o movimento no clube era intenso. Arrumação de cadeiras, mesas, tamboretes, limpeza do salão, paredes, pintura, portaria, enfim, tudo que se fizesse necessário para o sucesso do evento. Instalaram uma cortina branca com forro em voil, com um corrediço em um grosso fio de arame, dando a ela opulência, elegância e eficiência na hora do abrir-fechar.

Escondia magnificamente um palco com enfeites laterais, armado em quase toda a extensão da parede frontal do Clube Social da cidade. Um luxo só.

O barulhinho das argolas no arame, correndo no abrir-fechar da cortina era muito chic, naqueles tempos que só existiam Rural e Jeep. Trabalharam sem canseiras para deixar o salão com ares de teatro de cidade grande e a noite de estreia finalmente chegou. E o debut se fez show numa linda noite de verão e acho que era tempo de estio, porque não havia nos céus, nenhuma gota de água pra molhar o chão. Portaria em frenesi, movimento, sons vozes, o salão em intenso burburinho e a ânsia natural de ver o que os artistas da terra, tinha na cartola pra mostrar. As lembranças daquela noite vêm com nitidez para alguns fatos, mas também anuviadas em outros atos. Lembro de Osmar de seu Adalécio vestindo um casaco preto, usando costeletas, lembrando um cadete militar. Lembro de uma menina cantando a música “O pobre barqueiro” muito popular naquela época, de conhecimento de quase todo mundo.

Eu, garoto de ,10 ou 11 anos, assistia a tudo com os olhos de felicidade e admiração, porque este universo de luzes e faz de conta, sempre me deixou em estado de encantamento e louvação.

Um número de rara beleza, ficou gravado no cantinho sagrado das minhas lembranças. Um casal, infanto-juvenil, arrancou olhares de enlevo e admiração, pela pureza da sua apresentação. Foram minutos de silêncio para no final, uma explosão de aplausos carinhosos e ovação merecida de parentes e admiradores. Ele era Jairo Miranda, filho de seu Lori e dona Gení. Ela Maria Orleide Sodré, filha de dona Elza e seu Raul.  Ambos graciosos, mas Orleide paramentada de Nossa Senhora, vestida de branco com um delicado manto azul celeste a lhes cobrir a cabeça, estava divinal. Era a imagem da mãe do redentor em miniatura. Cantaram o hino católico conhecido de todos nós. ” Mãezinha dos céus eu não sei rezar, eu só sei dizer que quero te amar…. Também ouve um outro número em que a nossa estrelinha se fazia de princesa. Era a princesinha Rosalinda adormecida e se cantava ” Um dia veio um lindo rei lindo rei, lindo rei… foram magistrais.

Jairo e Orleide, no universo pueril em que viviam, nos legaram instantes de pura magia infanto-, juvenil. Estarão sempre nos anais daqueles que têm luz própria e àquilo que têm luz própria não se apagará jamais. A arte, mesmo mambembe merece respeito, aplausos e o arrebatamento de quem está do outro lado da Ribalta. E foi por isto que naquela longínqua noite do começo de nossas vidas, eu aplaudir também com o meu coração, todos aqueles que deram um pouco de si, para tornar mais caliente, as pachorrentas noites da nossa pequenina cidade, do noroeste da Bahia.

Era preciso coragem para enfrentar o outro lado do palco, cheio de amigos do dia dia. Para fugir da mesmice, se mostrava o rosto para uma turma de guris, pronta para absorver os erros de quem ainda tava no amadorismo.  Era corpo e mente em exposição, somente por amor a arte de encantar. Se no momento de abrir as cortinas, é terrível para quem faz isto por profissão, imaginem para jovens amadores que têm as pernas assentadas apenas no entusiasmo e na vontade de ver o novo estender seu manto de inovação, sobre as sombras da inatividade. Benditos sejam, os mensageiros do “novo”.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

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