Ainda garoto, ouvia vez ou outra, a metáfora existencial de que o gato tem sete vidas. É evidentemente, uma alusão literal à capacidade incrível de sobrevivência destes animais.
A certeza é de uma afirmação mentirosa, pois como tudo neste mundo, os gatos sucumbem à força dos anos vividos iguais a todos nós e viajam pro além antes ou depois do tempo de vencimento de data de validade, por naturalidade ou por um percalço de acidente de trabalho, tipo atropelamento em via pública. Estava pensando cá com os meus botões, se por um capricho dos céus, nós, meros mortais, numa realidade divinal, fôssemos eternos como os diamantes. Como seria este mundo já nesta data, um formigueiro humano com aproximados um trilhão de habitantes. Se desde o tempo do felizardo Adão e da curiosa Eva, a premissa de eternidade fosse sacramentada pelo criador, onde estaríamos, em que estágio de vida se vivesse, como seria ou como neste mundo “sesse”.
A busca pela fonte da juventude é incessante, não se aquieta até quando a ciência dorme. Nos sonhos, ela imagina a hora do despertar do “Phoenix” mas este milagre tem ainda milhões de anos, de olhos grudados em pranchetas de pesquisas. Se fôssemos eternos, por associação não teríamos medo, seríamos arrojados em nossas decisões e a intempestividade seria a normalidade de comportamento e a prudência uma virtude que não seria preciso observar. Não haveria medicina alternativa, pois não teríamos males a serem curados, também sem a farmacologia com portas abertas de plantão, pois sem receitas de remédios, também sem receitas nos cofres do patrão.
Haveria em cada esquina, uma loja de negociar conforto e comodidades. A corrida para acumular riquezas, seria bestial, com uma fila agigantada de milionários, querendo figurar no livro de quem mais tinha pra mostrar, para a avaliação pública do quanto foi capaz de amealhar. As armas, seria de tecnologia futurista, com a capacidade de alta precisão, para a segurança do patrimônio e do cidadão. A morte só viria, por uma bala perdida, um taco de beisebol ou copinho de suco envenenado, para com cuidado exterminar a vida.
Com a regeneração natural das células, não existiriam carecas, nem fábrica de perucas. A cegueira, por justiça divina não se conhecia e fabricar óculos só para proteção solar e ter beleza se fazia. Até mesmo aqueles comprimidos azulado dos velhinhos, que a mocidade eterna os dispensa de usar, nem nos livros de histórias da carochinha, iriam figurar. Nosso corpo, sofreria o processo de regeneração da pele, tipo a “ecdise” das cobras e de tempos em tempos, uma capa nova surgiria, sem rugas ou estrias, sem os excessos das gordurinhas que nos agonia. A cirurgia plástica seria uma novidade no mundo dos narcisistas e os salões de beleza se multiplicariam para a demanda vaidosa dos amantes de si mesmo. O medo dos aviões não nos deixaria, afinal uma queda destes pássaros de aço, sepultaria todos os sonhos de uma vida de louvores e isto, era a única coisa que ninguém queria.
A pressa, este acossamento da alma, na percepção do desconhecido, talvez nem existiria. A curiosidade de ver o mar pela primeira vez, aprender a nadar ou a ânsia natural de namorar pela primeira vez, não seria “papos de aranha” pro juízo, nem se cultuaria o ditado “Não deixe para amanhã o que pode fazer hoje” afinal o amanhã estaria logo ali, no amanhecer de um novo dia. Os ladrões, esta praga tão resistente e nojenta quanto as baratas, estariam no patamar de sempre, nocivos e perigosos.
Os mais danosos, continuariam em seu “habitar” natural, engravatados e lustrosos nos gabinetes oficiais do governo, com o beneplácito pobre, dos eleitores emburrecidos.
A arte, no viés que lhes confere, seria a mesma de antes do milênio da eternidade.
A poesia, a literatura, o canto, a dança, a composição, a execução instrumental, a pintura e mais um número imenso de louvores, jamais deixariam de purgar devaneios e encantos, dignos de ” Primeira página” pois o belo não se vende nem se compra, a sua casa é de o jeito mais doce, o seio da alma.
Na verdade, está utopia existencial de se viver pra sempre, é apenas uma maneira lúdica de se brincar com as letras.
Mas se verdade “sêsse”, chegaria o tempo de controle de gente, de eliminar multidão, porque com a certeza dolorosa e dolorida de que um dia, na hora do almoço, pra todo mundo não haveria feijão.
Nos dias de hoje, para aqueles que nos cofres tem um montão de notas, deve se confrontar com uma verdade que certamente incomoda. O que fazer com o meu tesouro, que de tantos “louros” conseguir juntar, mas na minha última viagem, no meu bornal de couro, todo este ouro, não poderei levar.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.