Carlos Karoá escreve: ‘O CINE UNIÃO’

O ano eu não me lembro com exatidão, mas ficava mais pra riba ou mais pra baixo de 1961. Foi quando eu passei a perceber a presença de um homem feio, baixo, queixo proeminente, cabelos penteados pra trás e com um cigarro eternamente pendurado na boca. Sempre via o distinto, na companhia preciosa de um homem que eu sempre admirava, estimava de coração alegrado, que

Merecia de todos nós, respeito e admiração.  Era o nosso amado Seu Bidão.  O nome deste homem feio, era Jessé. Seu Jessé para ser mais conveniente. Não sei de onde ele era ou de onde veio, mas o “boato verdadeiro” que se espalhou pelas ruas, era de que iriam instalar um projetor cinematográfico no salão ao lado do Bar União, cujo proprietário não era outro senão, o bom e velho Bidão.  A notícia caiu como uma bomba de confetes coloridos, adornados de amor e uma alegria sem fim no meio da molecada, inclusive eu. A primeira exibição com o tal projetor de cinema, foi no Clube Social Barrense, pois o futuro Cine União, ainda não estava pronto.  Faltavam cadeiras, pintura e principalmente a tela para mostrar os artistas trocando socos, atirando com revólveres cujas balas nunca se acabavam ou dando beijos inocentes nas mocinhas faceiras, sempre bem bonitinhas, com belas tranças enfeitando o rosto.  Bons tempos.

O cinema de seu Bidão, foi uma das coisas mais importantes da minha vida juvenil. Parelha equiparada com os banhos no açude e as nossas brincadeiras com bolas de gude e jogar piões na velha praça Nestor Coelho. Me fez conhecer o mundo lá fora, além dos limites interioranos onde eu vivia.

Conheci a América, cuja cultura dos seus Cowboys é única no planeta,

Conheci o início do mundo civilizado no oriente e no ocidente, misturando costumes, travando lutas pelo direito de usurpação e poder, essa vontade humana, esta ânsia animalesca que parece não ter fim. Foi no cinema, que conheci as produções dos grandes estúdios, mostrando as mentiras e verdades do começo da civilização humana.

Em terras tupiniquins, mais precisamente no Rio de Janeiro, o deleite coletivo da molecada com as “chanchadas” da Atlântida. Fitas adocicadas com roteiros caramelizados e praticamente no elenco, os mesmos atores e atrizes. Abençoadas sejam estas almas do bem, que tantas alegrias doaram em vida e agora em descanso eterno, a reverência respeitosa é profundamente merecida.

Oscarito, Grande Otelo, Eliana, Renato Restier, Dercy Gonçalves, Wilson Grey, José Lewgoy, Zezé Macedo, Sônia Momed, Cill Farney, Ankito, enfim, a lista é por demais extensa, impossível nominar a todos.

Até hoje, continuo cinéfilo de carteirinha.

Uma citação obrigatória quando falo do Cine União, é do meu amigo Helinho, filho de seu Bidão. Quando nos víamos, falávamos dos mesmos filmes, dos mesmos atores e atrizes, das mesmas coisas de sempre, uma conversa que se repetia a cada ano que visitava a nossa terrinha vermelha.

 

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

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