Ser um morador da ponta da rua lá em Barra do Mendes, no meu tempo de guri, era um pecado sem culpa pois ninguém tinha a obrigação de habitar o centro, mas estas pessoas certamente não tinham regalias e uma delas poderia ser, a de não ter o lixo de casa recolhido pela carrocinha do gari, “Dingo”, filho de dona Elisa e seu João grande. Disso aí eu tenho certeza, pois morar no final da rua, não gerava dividendos sociais. Este estereótipo, entretanto, de ausência de prestígio, não se aplicava ao Sr. Otacílio leite da Cunha, morador do finzinho da rua Juraci Magalhães, vizinho de seu Sinésio, aquele do velho caminhão GMC, que carregava de tudo, mas freios que era bom, necas de pitibiriba, tinha que saltar e botar o cepo pra parar o bicho quando precisava estancar as rodas.
O Sr. Otacílio, dividia com a mulher, uma singularidade das mais curiosas. A de terem se matrimoniado com a pessoa do mesmo nome, trocando apenas o “a ” pelo “o,” Acredito que alguém de nome Otacílio, casar-se com alguém de nome Otacília, em Barra do Mendes, nunca mais vai acontecer. É como um raio cair duas vezes no mesmo lugar e esta possibilidade segundo a sabedoria popular, é impossível acontecer.
Ainda menino, sem nenhuma prosa entre nós dois, eu o conheci pessoalmente. Estatura mediana, com a alvura do tempo emoldurando o rosto, oferecia sempre um sorriso de amabilidade a quem lhes estendia a mão. Autodidata em educação, íntegro, de ilibada honra, entre tantos foi o escolhido para gerir os recursos do município desde a sua emancipação. Permaneceu no cargo até lhes acolher a aposentadoria, um feito admirável, lastreado em honestidade, respeito e dedicação aos seus munícipes. Homens probos iguais ao Sr. Otacílio, foram-se tornando raras moedas na troca de valores.
Na sua morada simples, lá no finzinho da rua, a felicidade era primazia. A cada dia, a gratidão por abrir os olhos e quando a noite vinha, na sagrada hora do descanso, a benção dos filhos, conscientes da lisura do lar onde viviam e da criação exemplar que recebiam.
A prole foi generosa:
Nilza, Nelcy, Euricles, Antônio, Eudes, Maria, Luzia e Livio. Às mulheres, o beneplácito da beleza ímpar, os homens, entretanto, estranhamente escaparam desta virtude.
A primogênita, Nilza Mendonça Leite, foi gerada com os mimos de um casal em enlevo de amores. Lindíssima, herdeira da deusa grega “Afrodite”, despertou a atenção dos organizadores do concurso de Rainha do Carnaval do Social Clube da cidade. O embate aguerrido foi contra a também belíssima, Zélia Batista de Oliveira, filha de dona Mariquinha. De rosto chamativo, Selina também fez valer a sua indicação. Duas princesas, disputando a coroa de rainha. Um páreo duro, porém, prevaleceu a estrela iluminada de Nilza Leite. O ano foi 1959. Entre as belas, a mais bela “Aeternus”.
Nilza hoje é moradora de Seabra e Zelinha moradora de Barreiras. Vida longa para ambas, as iluminadas contendoras.
A união de Oto e Ota, tinha a anuência dos deuses. De útero abençoado, dona Ota pariu primores. O filho Euricles, mais conhecido como “Lico”, era e até hoje é, uma referência futebolística barramendense. Fazia da zaga do selecionado local, uma barreira quase intransponível. O lema era ” vai à bola o atacante fica”. Atleta titular, tinha a confiança de quem amava o futebol, na terra dos ” von vons e dos puçás”. Eu o vi atuar por diversas vezes em treinos e na bola valendo, quando as chuteiras rasgavam o chão vermelho desnudo de grama, luxo de cor esverdeada, que era uma premissa de campos onde somente imperava o profissionalismo. Joelho ralado, dedão sem o tampo e sangue na canela, era tão comum naquele tempo, como pão com mortadela. Bons tempos, que eu, também como futebolista, tive a glória de viver.
Em 1964, cursamos no recém fundado Colégio Estadual Nestor Coelho, a primeira série ginasial. Havia neste “tacho” de estudantes, alunos com viés de pensamentos, multifacetados, como mandam regiamente as leis do inquilinato. Haviam as baixinhas tipo Cizinha e Pretinha de dona Mira, o excêntrico Ezequias Sodré, os símbolos compostos de encanto e graciosidade de Maria Áurea e Orleide Sodré, os estripulentos Carlos de Aurélio e Carlos Karoá e o titular absoluto no quesito Aluno exemplar. Esta carapuça era única, pertencia ao desde garoto um cavalheiro, Antônio Leite da Cunha, o Tonho Leite para os amigos. Óia seu Otacílio e dona Otacília aí de novo.
Tonho Leite, nosso “El pibe de oro”, ocupava o posto de melhor aluno, com a humildade dos vencedores. Não permitiu jamais que a referência de iluminismo que a ele dedicávamos, interferisse no seu comportamento pessoal, entre os colegas que merecidamente o admiravam. Trazia no cós das calças, a simplicidade que o berço lhes doou. Nos assuntos escolares, foi colossal a sua contribuição. Honrosamente continuamos amigos até os dias de hoje.
O Sr. Otacílio Leite nasceu no povoado do Juá, hoje distrito de Presidente Dutra, em 20 de setembro de 1915. Voou pros céus em Barra do Mendes, em 09 de novembro de 2001.
86 anos vividos neste planeta.
Dona Otacília Mendonça, nasceu no povoado Aleixo, hoje distrito de Ibipeba, em 02 de agosto de 1916. Deixou este mundo em 02 de julho de 2003. 87 anos de puríssima servidão humana.
Hoje espalham luz Divina em outro plano astral.
À família Leite da Cunha, os meus respeitos e a minha humilde admiração.
Os dados biográficos, foram gentilmente cedidos pelo filho Eudes Leite da Cunha, a quem reverencio em agradecimentos.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.