O CLÃ DOS TOSTA
O nome Ivan IV Vasilyevich para a maioria das pessoas quase não diz nada, ignoram que ele foi um príncipe moscovita, russo, portanto, nascido nos arredores de Moscou em 1530 e que reinou de 1547 a 1584 quando veio a falecer. Mas, um número razoável de pessoas, têm a consciência histórica de ter ouvido falar em Ivan, O terrível, só que não sabem que estes dois nomes pertencem à mesma personalidade soviética. Sempre que ouço falar em Ivan, O terrível, um nome me chega no mesmo ato, o de Sossô, O terrível, filho do meu querido professor de Ciências físicas e biológicas, Dr. Francisco Vieira Tosta. Um, o pai, altruísta por excelência, o outro, o filho, estripulento por natureza.
As informações que tenho, indicam o nascimento de Dr. Tosta na cidade de Muritiba em 21 de janeiro de 1912. A sua chegada em Barra do Mendes, foi no dia 05 de agosto de 1948, já diplomado pela Faculdade Baiana de Medicina, fato historicamente documentado em 08 de dezembro de 1942. Faleceu em 15 de maio de 1990, 78 anos então, levando serventia humana no chão vermelho da nossa querida Barra. Casado com a jovem Dagmar Alves, para quase todos Dona Dadá, nascida na cidade de Xique-Xique em 15 de junho de 1927 e falecida em 7 de novembro de 2022, na cidade onde ambos escolheram para viver: Barra do Mendes. O humanista Dr. Tosta, tem merecidamente a admiração e o respeito da cidade que o acolheu, onde fez valer com plenitude, o divino sacerdócio da medicina. A prole do Dr. Tosta versus dona Dadá, foi generosa enquanto um tantão de gente. Foram eles:
Dailton, Dilton, Dailson, Daildes e José Tosta.
Estes usavam bigodes
Maria do Socorro, Elvira e Margarida Maria, estas usavam batom.
Dr. Tosta foi o segundo prefeito do nosso município e o primeiro professor de ciências no Colégio Nestor Coelho. Os deveres da medicina, o obrigavam a quase sempre faltar aos deveres docentes. E sempre quando isto acontecia, as alunas, iam buscá-lo em casa, para o cumprimento do dever de mestre. Era hilário, vê-lo chegar de braços dados com Nicinha, Dete, Neide Galfo, Deni de Salú, Elizete e mais um monte delas que faziam parte da turma.
Certa vez, para ilustrar a dureza do diamante como verdade geológica, contou em sala de aula, que pegou escondido o anel de brilhante do pai e o colocou na linha férrea, para ver o que aconteceria quando o Trem passasse sobre a gema. Para sua surpresa, o anel ficou encrustado no trilho, o que deu a ele, um trabalho dos diabos para recuperar e devolver antes que o pai percebesse. Naquele tempo, eu ainda um garoto, fiquei deveras impressionado com o fato, hoje, porém, sei que ele quis apenas ilustrar uma verdade mineral, nada mais que isso. Era uma historiazinha criada simplesmente para a nós, alunos, deixar cientes e sabedores que o diamante é a matéria de maior dureza que existe no planeta Terra. Mas, o texto é sobremaneira a respeito das travessuras do terceiro filho do casal, Dailson Tosta, o capeta em forma de guri, meu amigo de infância Sossô, o Terrível.
Sossô, O terrível, tinha um escudeiro mor que dava suporte nas suas travessuras, era o também traquinas, Alberto de Filadelfo, morador da rua de cima e que hoje reside em Barreiras. Recentemente estivemos juntos, papeando coisas das antigas. O irmão Daildes, (apelidado de Quinha) assim que a adolescência chegou, passou a fazer parte da turma, junto a um outro garoto, Adão do seu Otacílio, mas a chefia da “gang” era mesmo do velho Sossô. Um garoto da rua de baixo, ter a ousadia de perambular pelas cercanias da rua de cima, estava correndo o risco de “peia” e isto a gente evitava, solenemente. Certa vez, tive a ousadia de ir com o meu primo, Zinho de Fiinha, tomar banho no Açudão, atrás da casa de seu Aníbal, quando fomos surpreendidos pela “gang mirim”. Zinho escapou, mas eu fui agarrado ainda na água e tive a cabeça mergulhada por diversas vezes, ele, o terrível, segurando meu pescoço. Pensei que tinha chegado a minha hora. Escapei por um triz. Neste momento de agonia, perdi um chaveiro, presente de meu pai e resolvi ir cobrar providências do Dr. Tosta, mas, neste dia, ele estava cuidando de um homem que fora baleado no peito, lá pros lados da Serra e achei melhor desistir. Noutra ocasião, no início da noite, estávamos na porta da Pensão de dona Amélia, com uma fileira de pedaços de borrachas de pneus de caminhão, enterradas na areia, imitando postes de ruas, todas incandescentes pois tínhamos surrupiado um fósforo lá em casa pra tocar fogo nas borrachas, como se fossem luzes acesas. O capetinha chegou, derrubou a tudo por pura maldade. Não houve revide, a gente tinha mais medo dele do que da mula sem cabeça. Na época do açude cheio, sangrando, quando era permitido o banho coletivo, a molecada toda passava o dia por lá se divertindo. Isto até a gang chegar, porque depois disto, o espaço era deles, tirava todo mundo desferindo “coices”, como se cavalo “sêsse”. Havia na sua personalidade, um prazer mórbido de semear repulsa e antipatia, era respeitado, mas entre a turma da rua de baixo, o sentimento por ele era de aversão generalizada, era a outra face da moeda de quem não sabe ou não tem interesse em granjear amizades.
José Carlos Durães, meu colega de sala do Colégio Nestor Coelho, me fez uma narrativa por demais inusitada e talvez por isto não parava de rir enquanto contava. Disse que numa manhã bem cedinho, alguns colegas inclusive ele, foram chamar o capetinha para uma aula de educação física. Após insistirem batendo na janela do quarto, foram surpreendidos com um disparo de espingarda de socar, no vitrô da janela. Foi estilhaços de vidro pra todo canto e meninos correndo de medo de volta pra casa, o que atestava não ser fácil, o mau humor do rufião.
Muitas histórias são atribuídas ao estilo turbulento na vida deste meu amigo de infância. Conta-se que certa vez cortou o rabo de um ratão do banhado e vendeu pra Cazuza da farmácia, como preá do campo. Boa parte do cabelo do farmacêutico, foi pro beleléu. Também ouvi narrativas, afirmando que ele mandava encher o tanque de gasolina e depois mandava o frentista ir cobrar na casa do pai, em Barra do Mendes. Não Vivi estes fatos, logo não posso afirmar, vão para os anais do livro do ouvi dizer, do ouvi falar. Não há comprovação destes episódios, portanto fica a dúvida no ar, da veracidade do que me foi narrado.
O inquieto Sossô, era apenas um garoto quando lhes sobrava traquinices no comportamento. Talvez pela realidade generosa em que vivia, tendo o pai nas condições virtuosas da medicina e gestor municipal, imaginava na sua puerilidade, que tudo aquilo que vivia, era uma verdade que duraria para sempre. Negligenciou os estudos, de maneira nenhuma quis alisar os bancos do conhecimento, nem de longe imaginava que o tempo é inexorável quando não o consideramos o senhor de tudo. A adolescência passa em nossas vidas, como voos fugazes de aves de arribação; rápidos, incertos e muitas vezes sem saber a direção. É preciso logo cedo, encarar a vida e colocar os pés no chão. Dormimos adolescentes, acordamos na maioridade, prontos para os desafios existenciais, porque sem esta percepção, corremos o risco de mais tarde, amargarmos, profundas desilusões. Meu amigo traquinas, por esta indiferença, pagou preço alto, por estas provocações.
Uma tarde, nestas visitas periódicas que fazia e ainda faço a Barra do Mendes, passeando pelas novas ruas da cidade, Alberto Durães e eu, o avistamos na Janela da casa espiando o entardecer. Era verão e o sol derreava pro ocaso, lentamente, lá pro lados do cruzeiro da Serra. Resolvemos abordá-lo, para ver se me reconheceria. Me olhou por instantes, mas não soube quem eu era. Só depois de alguns minutos de prosa e revelações, o seu semblante se iluminou, num sorriso festivo de reconhecimento. E aí, a gabolice durou até o negrume da noite, trazer pra riba dos postes o acendimento das luzes. Nos despedimos como homens, que superaram sem nenhuma mágoa ou ressentimento, as peraltices vividas no passado. Fiquei feliz em vê-lo, senti que ele também fora ungido do mesmo sentimento.
Em outra ocasião, numa noite momesca, o encontrei na Praça de Eventos, paramentado de Guarda Municipal. O cumprimentei, trocamos as rotineiras “alô como vai,” mas a prosa foi curta, pois ele alegou deveres profissionais e teria que fazer a “ronda” em vigilância permanente, até o fim do turno de trabalho. Foi a última vez que o vi, até chegar ao meu conhecimento, a notícia da sua partida deste mundo de tristezas e alegrias que por justiça divina, é uma verdade inconteste para a humanidade. Neste nosso último encontro, estava mais maduro, mais conciso dos deveres de homem, das convicções que aprendemos com o passar do tempo. De forma positiva ou não, terá o seu nome lembrado por muito tempo, na cidade onde nasceu, cresceu e voou para os céus.
Dona Dagmar Alves Tosta, para os amigos Dona Dadá, era uma assistencialista contumaz dos menos favorecidos. De uma elegância trazida do berço, abraçou os deveres de Primeira Dama como se esta premissa fosse para toda a vida, sendo admirada e respeitada pela cidade inteira, misturando sem reservas, quaisquer siglas partidárias. Teve a desventura de levar à sepultura, quatro dos filhos homens, dos cinco que pariu pro mundo. Esta dor, em todos os sentidos, é lamentavelmente indescritível. O filho Daildes, apelidado de “Quinha” está vivo e reside em Barreiras.
As filhas, aquelas que usam ” Baton”, todas vivas, desfrutam por aquiescência divina, as venturas e delícias do planeta Terra.
Da minha parte, no meu coração, o meu apreço, os meus respeitos e a minha admiração “Aeternus”,
Pelo Clã da família Tosta.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.
As datas e nomes inseridos no texto, foram gentilmente cedidas por Eduardo Mendonça e Liandro Antiques, a quem reverencio em agradecimentos.