Carlos Karoá escreve: ‘O ÚLTIMO CAVALHEIRO ‘

Dia desses, em rodopios pelo controle remoto da TV, me deparei com uma pérola Hollywoodiana do século XX, mais precisamente do ano 1976, a película da Paramount Pictures, intitulada “The Shootist”. Aqui pelas terras tupiniquins, o nome chamativo era e ainda é, “O último Pistoleiro”.

A produção da fita, foi do italiano Dino de Laurentis, um dos grandes produtores de cinema, nascido na Itália, mas debulhava seu ofício nas terras do Tio Sam.

O ” Cast” recheado de astros e estrelas, tem peso de ouro nas bilheterias:

O velho John Wayne, em seu último trabalho, encabeça a lista. A bela Lauren Bacall, amor eterno do lendário Humphrey Bogart, agora uma matrona, nos encanta com seus belos olhos verdes, tão doces e profundos como segredos de alcova. James Stewart, um dos maiores da era de ouro, também mostra sequências do mais puro talento. Richard Boone, o charmoso “Paladino do Oeste”, Hugh O’brien, John Carradine, Ron Howard, enfim, uma constelação dourada vivenciam na tela um roteiro, que mais me parece, uma homenagem à obra cinematográfica do mais respeitável grandalhão do cinema americano.

Quis eu, por associação, fazer uma analogia aos dois títulos abaixo:

O último Pistoleiro e o Último Cavalheiro.

Quero por dedicação, ser o último cavalheiro. Se flores existir, que eu possa oferecê-las.  Ofertar a beleza única do amanhecer, bem que gostaria, mas esta eu nem posso imaginar, pois é uma beleza divina e pertence ao Deus dará. Se me sobrarem palavras, quero alinhá-las em versos e prosas e se minha inspiração nesta hora em borbotões vier, que seja docemente, pueril quando menina, sensual quando mulher.

Se em passeios por aí, sem um destino a nos guiar, quero olhar em derredor e ver o que de mais bonito para ela eu posso dar. E as andanças, evidentemente de mãos dadas, unhas entrelaçadas, como convém a um casal de apaixonados, nada faz sentido se sozinho estou, sem e saber pra onde vou, sem a zuadinha dos seus passos a me acompanhar.

Oferecer a parte de dentro da calçada, como se fazia antigamente, abrir a porta do carro como se fazia antes, apenas ser galante, para quem sabe mais tarde, um beijo carinhoso receber, afinal, cavalheirismo nem muito mesmo custaria.  Para cada amanhecer, os votos de um bom dia, para cada anoitecer, a gentileza de querer saber, como foram os dissabores ou venturas do seu dia.

Mas raro nestes dias de igualdade entre partes, as três palavrinhas de um mimo que não envelhece ou se deixa desbotar, o “eu te amo”, nem mais no cinema é figurinha carimbada. O romantismo do cavalheiro que aparecia num lindo cavalo branco, infelizmente está indo embora, lentamente, mas constante, no manto sem cores das realidades cinzas dos dias de hoje. Os arrodeios de antes, foram amornados em cantinhos de espera. O pragmatismo da conquista, hoje é imediato. As vezes nem mesmo o nome da donzela é sabido e sem nenhum constrangimento, sem respeito, sem auto estima ou aborrecimentos, ambos consumam o ato, sem que o cavalheiro sem cunho de desacato, possa mensurar o sabor de uma vitória a duras penas conquistada. Se tão fácil está, fazer a corte é coisa do passado, não faz parte da jornada.

Mas, por convicção, por profunda afirmação, quero ser um cavalheiro das antigas. Uma reverência aos bons tempos da boa e velha cortesia. Cordialidade, furtivos e melosos beijos, olhares de admiração, vez em quando um alisar do ego ou do corpo, seja de voz ou no calor do toque das mãos. O amor, se dele ungido estou, é sagrado, está em minh’alma e é pura devoção. Não o negócio, não o vendo ou alugo por momentos, não misturo sentimentos, quero e vou estar sempre em paz, com os ritos da paixão. Não me importa a agonia da saudade, até pode parecer bondade ficar longe, estar por um tempo ausente, dormitar em solidão. Mas, se quando a noite vem, se há mais alguém em meus lençóis a me esperar, os travesseiros são adornos, as cobertas adereços e o gozo, este certamente jamais terá um preço, afinal, dizer “eu te amo” com sentimento absolutamente verdadeiro, não custa absolutamente nada.

 

 

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

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