O LUCRO FAZ MAL PARA A SOCIEDADE?


Diferentes povos e culturas ao longo da história humana tiveram diferentes percepções sobre a moralidade do lucro. A professora Deirdre McCloskey merece especial destaque no estudo de como nos séculos XVII e XVIII as pessoas em alguns países da Europa passaram a ver empreendedores e inventores como ocupações moralmente honradas , e como essa nova percepção desencadeou uma extraordinária evolução nas condições de vida da população nesses países e, mais tarde, no mundo.

Não obstante, a busca do lucro é sempre apontada como um dos causadores dos males da sociedade.

Diante desse paradoxo, é natural nos perguntarmos, em primeiro lugar, o que é exatamente o lucro? E depois, a partir daí, tentar descobrir se o lucro faz bem ou mal para a sociedade.

É conhecimento convencional que o lucro de uma empresa seja a diferença entre (a) o dinheiro recebido por tudo aquilo que ela vendeu e (b) todo o dinheiro que ela gastou. O lucro é exatamente o que sobra da subtração entre essas duas pilhas de dinheiro: o que entra e o que sai. Agora vamos olhar para cada uma delas por uma perspectiva econômica.

A receita de vendas de uma empresa é todo o dinheiro que ela recebeu de seus clientes em troca de seu produto. Cada centavo que compõe o que ela recebeu, recebeu de alguém que julgou que estaria em melhor situação com seu produto do que com o dinheiro que estava sendo cobrado por ele.

Sam Walton , o fundador da gigante varejista Wal-Mart, costumava dizer que para ele perder toda a sua riqueza bastava que as pessoas decidissem parar de comprar em suas lojas. Toda a fortuna que ele acumulou (foi o homem mais rico dos EUA na década de 80) foi adquirida, dólar por dólar, de pessoas que entraram em uma de suas lojas, escolheram algum produto da prateleira, passaram no caixa, e trocaram uma certa quantidade de dólares pela prerrogativa de levar aquele produto para casa.

Se não fosse por Walton, cada uma dessas milhões de pessoas teria que se contentar com a segunda melhor alternativa para suprir a necessidade ou o desejo que a levou a fazer a compra. Talvez uma marca inferior na loja ao lado, ou uma loja mais longe de casa, ou um preço mais alto. Mas alguma coisa fez com que cada uma delas escolhesse comprar naquela loja, e com isso deduzimos que Walton causou-lhes um benefício por oferecer uma opção melhor do que as demais disponíveis.

E claro que há também os custos. Uma empresa só consegue realizar suas vendas trocando dinheiro por matéria prima, mão-de-obra, aluguel de imóvel, energia elétrica, transporte de mercadoria, etc. Cada um desses gastos não é um fim em si mesmo, mas uma forma de possibilitar a atividade da empresa. Para ela, todos eles são insumos, e todos juntos (e outros tantos que poderíamos ter colocado na lista) compõem o montante que será descontado das receitas para chegarmos no lucro.

Comecemos com o caso dos trabalhadores. Para desenvolver suas operações, uma empresa precisa empregar trabalhadores desempregados e/ou oferecer empregos melhores para trabalhadores já empregados. Um emprego melhor pode ser um salário mais alto, trabalho mais perto de casa, uma jornada mais breve, ou algo parecido. Ao olharmos para qualquer empreendimento (uma loja, um restaurante, uma indústria, etc), podemos ter a certeza de que ele precisou oferecer a cada um de seus trabalhadores um emprego que ele próprio considerou melhor do que qualquer alternativa de que dispunha no momento. Do contrário, ele não estaria lá.

Qualquer outro insumo que uma empresa adquira, desde matéria prima até energia elétrica, ela compra de outra empresa que também terá de contratar mais trabalhadores para atender essa demanda adicional, causando efeito idêntico ao descrito acima. E cada uma delas tem também seus fornecedores. Então esse efeito se propaga ao longo de toda a cadeia de produção beneficiando um número incontável de trabalhadores com melhores salários e/ou condições de trabalho até chegar no insumo fundamental de qualquer produção que é o próprio trabalho humano.

Então, reunindo tudo que vimos até agora, todas as vendas que a empresa faz são atestados de que os compradores se beneficiaram da existência do empreendimento; e todas as aquisições que a empresa realiza são atestados de que os trabalhadores que tornaram aquelas vendas possíveis também se beneficiaram da existência do empreendimento. Em outras palavras, vimos que todo empreendimento traz, através de suas trocas voluntárias, benefícios difusos à sociedade. Mas há uma particularidade no empreendimento lucrativo que ainda não exploramos.

Como dito acima, um empreendimento lucrativo é aquele em que a soma do valor das vendas é maior do que a soma do valor das compras. Com tudo o que vimos depois, o que isso quer dizer?

Se, graças ao empreendimento, (a) os consumidores estão pagando menos (ou outro benefício) por seus produtos, (b) os trabalhadores estão recebendo mais (ou outro benefício) por seus trabalhos, e (c) ainda assim sobra dinheiro para o empresário, isso implica necessariamente que antes do empreendimento os trabalhadores estavam recebendo menos por seu trabalho do que os consumidores estavam pagando por esse trabalho. Caso contrário, se os trabalhadores estivessem recebendo mais do que os consumidores estavam pagando, alguém que quisesse contratar esses trabalhadores para produzir algo e depois vender aos consumidores, ele teria prejuízo.

Vamos ver um exemplo com prejuízo para ficar mais claro. Suponha que um empreendedor esteja considerando contratar neurocirurgiões para vender areia na praia. Por que esse negócio provavelmente teria prejuízo?

O senso comum diria “porque é uma ideia estúpida”. Um economista, no entanto, responderia com algo como “porque o preço que as pessoas na praia estariam dispostas a pagar por areia é provavelmente menor do que o salário que seria necessário para convencer neurocirurgiões a deixarem seus consultórios”. Em outras palavras, as pessoas na praia não precisam de areia! E os neurocirurgiões não ganham tão mal assim!

O negócio lucrativo é, portanto, o negócio em que podemos ter certeza não apenas de que ele está beneficiando outras pessoas, mas que ele está beneficiando pessoas que precisam. O lucro é o atestado inviolável de que seu portador conseguiu encontrar pessoas que estavam pagando demais em produtos cujos produtores estavam ganhando de menos. E tem mais: quanto maior for o lucro obtido, (a) mais defasada estava a renda do trabalhador em relação ao preço pago pelo consumidor, e/ou (b) maior foi o número de trocas realizadas que beneficiaram essas pessoas todas. Ou, nas palavras de Robert Murphy , “lamentar que um capitalista esteja tendo lucro muito alto é como reclamar de um cirurgião por salvar muitas vidas” .

Olhando para os dois exemplos que usei, pode parecer fácil encontrar os casos lucrativos. Mas então o que você acha que está faltando no seu bairro? Uma nova academia? Uma loja de conveniência? Um pet-shop? Você apostaria seu dinheiro nisso?

Grandes inventores e empresários ficaram multibilionários com seus negócios, mas você já parou para pensar como seria o mundo sem computadores pessoais, por exemplo? Theodore Dalrympleesclarece que, apesar de sua riqueza ser apenas uma diminuta fração daquela de Bill Gates , ela é certamente maior do que seria se Gates não tivesse fundado a Microsoft. O mesmo vale para todo o mundo. Todos nos beneficiamos do esforço empreendedor que deu a ele sua fortuna.

E esse benefício não se limita a cada um poder usar seu computador. Imagine um mundo em que todos os supermercados mantivessem seus controles de estoque em papel. A administração não seria muito mais trabalhosa e errática? Esse custo não seria repassado para o preço dos alimentos? Isso não teria um impacto decisivo nas vidas de bilhões de pessoas além de Gates? Agora imagine isso para todos os produtos que já deram lucro na história. Eles não causam benefícios para a sociedade?

Quando as abelhas coletam néctar de flor em flor, elas não têm nenhuma intenção de espalhar pólen pela natureza.
Mas isso importa?

Quando paramos para pensar, o lucro já é a parte que cabe ao empreendedor na repartição dos benefícios que ele gerou para a sociedade. Mesmo assim, quando um empreendedor decide abrir seu negócio, ele dificilmente o faz especificamente para ajudar outras pessoas. Ele o faz para atender seus próprios interesses, como as abelhas que buscam néctar nas flores e acabam polinizando a natureza. Adam Smith já descobrira isso em 1776 :

O indivíduo não busca promover o interesse público, ou mesmo sabe o quanto está promovendo-o. E ao dirigir seu negócio de tal maneira que seu produto possa ter o maior valor, ele busca apenas seu próprio ganho. E ele é nesse caso, como em muitos outros casos, guiado por uma mão invisível a promover um fim que não era qualquer parte de sua intenção.

Uma das diferenças fundamentais entre o comunismo e o liberalismo é que o primeiro tem como pré-condição uma transformação na natureza humana 1 : as pessoas precisam deixar de agir para satisfazer seus próprios interesses individuais, e precisam começar a agir para atender os interesses coletivos da sociedade. Dezenas de milhões de pessoas morreram de inanição ou violênciadecorrentes de diversas tentativas de se realizar essa transformação, geralmente através do socialismo. Até hoje, muita gente acredita que ela seja, pelo menos em parte, necessária para um mundo melhor.

O liberalismo sugere um caminho mais fácil e menos doloroso. Ao invés de ver o auto interesse como algo a ser tratado, ele o emprega como combustível de um processo que melhora difusamente a qualidade de vida das pessoas. Esse processo é o empreendedorismo.

E aí voltamos ao início do artigo. Sociedades que valorizam empreendedores são mais prósperas. Que as pessoas queiram ser ricas, que queiram colecionar barcos luxuosos, acender charutos com dinheiro, ou conhecer a lua. Sem poder roubar nada das demais (inclusive corrompendo políticos), só poderão ter tudo isso aquelas que conseguirem ajudar outras pessoas – precisamente aquelas que mais necessitam.

Estamos finalmente prontos para responder a pergunta inicial, mas o farei com ainda outra pergunta: que mal há em promover o bem daqueles que mais precisam?


Esse artigo também foi publicado como Why We Should Celebrate Profits para o Foundation for Economic Education .

Fonte: Academia Liberalismo Econômico 

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